Opinião

Um bom filho à casa retorna

Um bom filho à casa retorna

28/03/2012 07:10

Um bom filho à casa retorna

Por Daniel Meirinho*

Há cerca de cinco anos fiz o caminho inverso dos agora 512 anos do descobrimento do Brasil e fui eu redescobrir a nossa ex-metrópole, Portugal, como um recolonizador, mas de mala aberta não para impor, mas para absorver cultura. Não posso me autoproclamar genuinamente canarinho por ser filho de mãe portuguesa e correr na veia um sangue lusitano, como diria Chico. Contudo, o selo de Made in Brazil pôde ser garantido por um pai nordestino e que me fazia beijar infinitas vezes o brasão da camisa da Seleção Brasileira no início de cada jogo das Copas do Mundo que me lembro e que VHS’s e fotografias não me deixarão nunca esquecer.

Fiz um caminho para mim, em busca de minhas raízes e de qualificação. Trabalhava como jornalista, mas meu senso crítico já chegava no limite de algumas respostas. Há cinco anos Portugal fazia chamadas a filhos de portugueses e emigrantes para que retornassem à terra do Fado, pois a economia crescia de vento em popa com a União Europeia e a taxa de natalidade diminuía a cada ano. Consequentemente, o país necessitava de pessoas jovens e qualificadas. Esse era o discurso de alguns consulados e embaixadas. A Europa soava para mim um velho mundo, mas cheio de contemporaneidade e cultura latente. No entanto, ao chegar à capital do que um dia foi o centro dos descobrimentos, Lisboa, vi um cenário não tão promissor. Como em toda a ocupação, onde os que chegam primeiro se alojam nos melhores terrenos, os brasileiros do segundo milênio já não tinham as mesmas oportunidades.

Há cerca de 20 anos uma leva de imigrantes que carregavam a bandeira verde e amarela fora muito bem recebida. Estes possuíam bons conhecimentos nas ciências dentárias que nos proveem bons e saudáveis sorrisos e profunda noção do mercado publicitário, que transformava um simples produto artesanal do país em orgulho nacional. Sem falar da safra de jogadores de futebol e um singelo técnico que na EuroCopa de 2004 pedia para que as ruas e sacadas dos prédios se vestissem de verde e vermelho. Coisa que em 2002 fez-nos pela quinta vez sentirmos-nos “os melhores do mundo”. Nem que fosse apenas com a bola no pé.

Os anos eram difíceis no Brasil e muitas pessoas imigravam para economias mais estáveis e se esquivavam como um bom drible elástico de pagar o nosso velho amigo FMI das firulas dos nossos comandantes políticos. Portugal estava em uma época promissora e falava a mesma língua, apenas com um sotaque mais puxado. Caso treinassemos nossos ouvidos e lêssemos algumas obras do Arcadismo e Barroco da literatura brasileira, seria moleza.

Quando cá cheguei, encontrei um Portugal que conhecia muito mais o Brasil do que nós a ele. Tinham novelas nos canais de televisão, MPB e Bossa Nova nos rádios, feijoada em alguns restaurantes e até coxinha de galinha. Todos conheciam o Lula e o Partido dos Trabalhadores e muitos imitavam o nosso sotaque bem, mesmo que fosse o “carioquês” novelístico. Ouvia-se diversas expressões e gírias nos metrôs, ónibus e trens. Brasileiros dizendo telemóveis, atendendo dizendo “estou” no lugar do nosso “alô” nos mesmos metrôs, autocarros e comboios em que os portugueses iam trabalhar. Mesmo já não sendo aquele paraíso de 20 anos, algumas empresas marcavam a mistura étnica, principalmente o setor de vendas e serviços nos quais, indiscutivelmente, nós somos mesmo bons.

Alguns anos após e com aquela política que bem aprendemos a fazer com eles, e não com os índios e africanos, uma crise chega a Portugal e se expande por alguns países da União Europeia. Os planos de austeridade chegam a casa de cada um, independentemente da sua nacionalidade, e se refletem desde o azeite até os preços dos transportes públicos.

Apesar do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) de Portugal afirmar que o número de estrangeiros diminuiu 1,97% em 2010, a comunidade brasileira continua aumentando e ganhou mais três mil integrantes em 2010. Uma alta de 2,7% em relação a 2009. No entanto, o que o SEF contabiliza é o número de imigrantes regularizados. Os ilegais ainda continuam no anonimato. Estes vêm e vão e nenhum percentual os quantifica.

A cada dia ouço mais casos de brasileiros imigrantes, ilegais ou não, e até famílias inteiras que estão regressando para casa. “A crise não está fácil para os portugueses, quem dirá para nós meu amigo”, me diz um ex-companheiro de trabalho curitibano em uma tarde de café e conversa fora. Outros, que há alguns anos diziam nunca mais voltar, estão começando a tirar as malas empoeiradas do armário e fazer a conversão Euro-Real. É possível ver o crescimento de transportadoras de mudanças para o Brasil nos canais televisivos portugueses.

O desenvolvimento nacional português não está sendo atrativo para nações investidoras. A economia do país, na atual conjuntura, incentiva o retorno dos que um dia deixaram suas terras para tentar a vida em países estrangeiros. Um jovem, no início de carreira, hoje tem mais chances no Brasil do que na Europa. Esse regresso acarreta alguns lucros e prejuízos. Algumas pessoas passam muitos anos fora e levam algum tempo para entrarem no ritmo tropical. A Folha de São Paulo publicou uma reportagem sobre a “síndrome do regresso” e a dificuldade de readaptação de emigrantes. O Itamarati criou também o “Guia de Retorno ao Brasil” que é distribuído nas embaixadas brasileiras e detalha os programas sociais e de acolhimento que muitos não acompanharam como o ProUni, Minha Casa Minha Vida, o Bolsa Família, entre outros.

O fato é que estamos cada vez mais voltando para casa e acredito que o acolhimento está sendo bem do jeito hospitaleiro e caloroso brasileiro. Acho que estamos fartos de pagar e esse tal FMI e 2014 chegando, nada melhor do que vermos o hexacampeonato mundial ser conquistado no quintal de casa. Só não quero, no tempo que me resta em Portugal, deixar de comer coxinhas de galinha e encontrar farinha de mandioca no supermercado. Isso sim vai me fazer voltar em poucos dias.

 

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