Economia

Energia e Sustentabilidade, por Bertrand Sampaio de Alencar

Energia e Sustentabilidade, por Bertrand Sampaio de Alencar

20/09/2012 08:56

Artigo

A sociedade precisa de energia para funcionar. Este é um axioma que deve ser relativizado, quando se trata da sobrevivência da humanidade. O crescimento econômico, tão combatido na sua perversa forma atual, mantém uma relação simbiótica com o aumento do consumo de energia.

A grande mídia, por sua vez, sempre generosa com empresários e governos, ao divulgar sobre crise energética, geralmente se utiliza do temor para criar uma falsa ansiedade na sociedade, que por sua vez acaba aceitando qualquer tipo de solução, desde que mantenham a luz (e a TV…) ligada. Nesta direção, fica difícil (ou quase impossível) pensarmos em desenvolvimento sustentável, pois não há como falar em sustentabilidade se a sociedade continuar a utilizar como fontes para produção de energia elétrica o carvão mineral e o petróleo, p. ex. e, principalmente, a energia nuclear.

Em que pese a Europa ainda utilizar cerca de 1/3 de sua energia oriunda de fontes nucleares, diversos países, dentre os quais a Alemanha vem promovendo a energia eólica e solar estabelecendo uma legislação que procura premiar as concessionárias que vierem a adquirir energia renovável. A Dinamarca utiliza seu imenso potencial de energia eólica para atender a mais de 20% de sua demanda de eletricidade. Os EUA, infelizmente, não servem como modelo neste campo das relações entre energia e meio ambiente. Aliás, não nos serve como exemplo para muitas coisas…

O desenvolvimento das energias sustentáveis, sobretudo a energia eólica, em maior escala, a solar, o biogás, a energia das marés, dentre outras, devem ser muito mais estimuladas pelo poder público e a iniciativa privada no Brasil, assim como vem sendo praticado em diversos países. O recente uso da tecnologia eólica, que vem sendo estimulada (e dissimulada) no Nordeste é um exemplo latente que podemos e devemos utilizar energias sustentáveis.

Nossa matriz energética atualmente depende majoritariamente da geração hidroelétrica, cuja tradição da engenharia militar-golpista, infelizmente, promoveu um modelo desnecessário de gigantismo hidroelétrico no país. O atual governo democrático deveria repensar este modelo e explorar esta forma de geração de energia elétrica de uma maneira menos agressiva ao meio ambiente, construindo hidrelétricas de menor porte em áreas menos suscetíveis a impactos negativos. Isso desagradaria um pouco as grandes empreiteiras e alguns políticos, mas a maioria da sociedade acabaria ganhando.

Podemos melhorar bastante nossa relação entre consumo de eletricidade, em torno de 2.232 Kwh per capita segundo dados de 2008 da Agência Internacional de Energia (IEA), e a geração de CO2 per capita (atualmente em torno de 1,90 t de CO2 per capita) com o uso de energias sustentáveis. Podemos também reduzir, quem sabe, o preço abusivo que vem sendo praticado pelas concessionárias privadas, a maioria formada por empresas transnacionais, desde que o governo socialdemocrata privatizou, em concorrência duvidosa a distribuição de energia diretamente ao consumidor. O Governo Federal anunciou recentemente (coincidentemente numa comemoração de cunho militar) uma redução de custo no preço da energia para o consumidor (16%) e para a indústria (28%). No entanto, segundo a mídia, o Brasil vai continuar com uma das energias mais caras do mundo.

A não ser que haja algum interesse do governo federal em produzir a bomba atômica, é possível dispensar o uso da energia nuclear, que representa muito pouco, menos de 2% do total de energia elétrica gerada no País. Esta decisão, por um lado, parece somente indicar o interesse governamental numa integração maior ao hermético clube atômico mundial. Por outro, incorreria numa maior ameaça ao meio ambiente, causando maior insegurança à sociedade mundial.

O fato concreto e indefensável é que o ser humano não conseguiu avançar numa tecnologia que garanta 100% de segurança à humanidade para a produção de energia nuclear. Os últimos acidentes nucleares ocorridos no Japão, considerado como o país de maior eficiência tecnológica do planeta, reafirmam esta insegurança e apontam para uma necessária rediscussão do modelo de geração de energia para a sociedade. Este triste exemplo, que ressalta o sofrimento do bravo povo japonês, nos diz (mais uma vez) que há uma luz no fim do túnel, gerada a partir da energia sustentável, à qual acende-nos uma idéia de que as tecnologias modernas resultantes de um processo não linear de desenvolvimento possam finalmente nos conduzir para um futuro promissor. Esta, certamente, pode ser nossa agenda positiva na área de energia e sustentabilidade. Quem viver verá.

*Engenheiro civil e de transportes, mestre e doutor em desenvolvimento urbano, pesquisador e professor do Instituto de Tecnologia de Pernambuco (ITEP), onde coordena atualmente a Unidade de Gestão de Resíduos Sólidos (UGRS)

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