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Quando é o fã é a primeira pessoa do verbo AMAR, por José Caminha

Quando é o fã é a primeira pessoa do verbo AMAR, por José Caminha

19/09/2012 09:41

Por José Caminha*

Ao final do projeto “Receita de Samba”, que aconteceu no Recife e marcou o encerramento do projeto Receita de Samba em Julho, o artista pernambucano Gonzaga Leal decidiu fazer uma homenagem à cantora Marlene. Pediu-me o contato de um destacado colecionador aqui do Rio de Janeiro, Cezar Sepúlveda, e assim, em parceria com a Associação Marlenista do RJ foi feita uma exposição que disponibilizou peças do acervo de Marlene para o público pernambucano.

O texto a seguir é o resultado de uma reflexão sobre o papel de pessoas como Cezar, Nieta, Ciro e tantas outras na construção de um mito, na preservação da sua imagem e da história da música brasileira.

CONFETE PARA OS FÃS

“Confete, confete,
confete e serpentina:
Marlene é a maior
figura feminina”

O refrão acima, repetido inúmeras vezes desde que Marlene venceu a enquete feita pelo Diário da Noite e que a elegeu a figura feminina de maior destaque do ano de 1954, é apenas uma entre dezenas de saudações feitas para a artista aos longo dos seus 70 anos de carreira. É com palavras de carinho, algumas vezes de adoração, mas sempre com muito respeito, que os admiradores se referem à cantora.

Para eles, Marlene é um tipo de artista cada vez mais raro. É fácil entender o porquê: as estrelas não se fazem sozinhas. É preciso uma conjunção de fatores que vão desde a necessidade da indústria cultural, o talento individual, a sorte, a vocação… é uma longa jornada até alcançar a empatia com o público. E tem sido assim desde que a midia é midia. Mas o tempo transformou esses conceitos e, nas últimas décadas, o modo de produção dos bens culturais aliado ao consumo desenfreado fez com que novas estrelas surgissem e desaparecem em uma velocidade cada vez maior.

À margem desse processo, há algo que os profissionais da comunicação e os estudiosos dos fenômenos de massa tentam compreender. Trata-se de uma gente que já foi chamada de macaca de auditório e que só aparece em destaque nas fotos como adoradores fanáticos das celebridades. Nas notícias, são retratados como pessoas desocupadas, sem juízo ou emocionalmente imaturas. Afinal, como explicar tanto afeto? O que ninguém consegue definir ao certo é em que medida o mito nos toca e nos arrebata.

No tempo em que Victória Bonaiutti deu lugar à Marlene, artista ainda era um eufemismo para prostituta. Eram veneradas como deusas pagãs, cujo Olimpo era o auditório das Rádios. Foi então que Glória, Lígia Rosa, Judith, dona Idéia, Áurea, Olímpio, Célio, Ondina, Orquídea e as irmãs Ferreira fundaram em 1953 o primeiro fã-clube da artista. O grupo saiu em defesa da crooner do Copacabana Palace, alvo da mágoa dos fãs de Emilinha, que acabou preterida no concurso de Rainha do Rádio do ano de 1949.

Para eles, o fato da Antarctica comprar os votos e lançar a nova rainha, Marlene, junto com um novo produto, o guaraná caçula, não invalidava o quilate da estrela que surgia. Ela cantava e sambava diferente e dava voz a quem ia aos auditórios assisti-la: desde os estudantes e funcionários públicos até o trabalhador que acordava cedo levando sua marmita para o trabalho e subia o morro levando uma lata d’água na cabeça. Junto com aquela gente que gritava seu nome, ela construiu sua carreira.

Uma história feita de prêmios, reconhecimento, provas de carinho, conquistas e perdas. Almerinda, que acompanhou Marlene por mais de 40 anos, foi a mais recente. É verdade que alguns daqueles admiradores se deixaram vencer pela nostalgia. Outros, como Jorge José, Arnaldo Magalhães e Ciro Gallo, remanescentes daquele fã-clube, quando se viram diante das dificuldades de convencer a indústria fonográfica de que valia a pena continuar investindo em Marlene, produziram, em 1985, o compacto duplo “Samba é fogo”.

Aquela iniciativa mostrou que era chegado o tempo em que não se podia mais se fiar apenas nas palavras de agenciadores e empresários. Por isso, naquele mesmo ano, foi criada a AMAR para defender os interesses de uma única artista: Marlene. “A Associação Marlenista do Rio de Janeiro é uma entidade jurídica com o propósito de elaborar projetos, agendar shows e acompanhar a mudança do tempo. E isso inclui procurar parceiros artísticos porque, apesar da importância da Marlene na cultura brasileira, ainda temos que vencer o preconceito e a falta de memória de muitos setores”, explica a atual presidente da AMAR, Nieta Carvalho.

“O nosso estatuto permite que a gente participe de shows e exposições por todo o Brasil. Cedemos depoimentos e entrevistas para documentários sobre Marlene e emprestamos fotos, revistas, cenas de filmes e muito material inédito para bibliotecas, universidades e pesquisadores, tudo para preservar a memória cultural do nosso país. Os mais jovens precisam conhecer o trabalho que foi realizado por toda uma geração de artistas que hoje está alijada da midia”, explica Cezar Sepúlveda, diretor social da AMAR. Depois de conseguir emplacar um projeto cultural através da lei Rouanet a associação conseguiu produzir, depois de cinco anos de trabalho, o DVD “Marlene, a rainha, e os cantores do Rádio”, reunindo alguns dos nomes mais significativos da história da música brasileira, todos gravitando em torno de Marlene.

Passados tantos anos, a proximidade entre artista e admiradores se fez mais constante: “Não são meus admiradores. Eu tenho amigos”, costuma repetir Marlene, aos 90 anos de idade. Talvez muita gente continue sem entender o motivo de tanta devoção a uma artista. Mas gente como Nieta e Cezinha ampliaram o significado do que vem a ser AMAR. Nem todo mundo tem um coração tão grande…

*José Caminha é jornalista e diretor do documentário
“Victória, Rainha do Samba”

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