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Os 100 anos de Gonzaga, por José Neumane Pinto

Os 100 anos de Gonzaga, por José Neumane Pinto

16/08/2012 13:03

 

 

No “maior São João do mundo” em Campina Grande, em 1988, Luiz Gonzaga tocou e cantou sentado numa cadeira ao lado de Fagner no Forrock. No dia seguinte, almoçou com o astro e outros amigos, entre os quais o autor destas linhas e dois membros do Quinteto Violado, Toinho Alves e Fernando Filizola, no Manoel da Carne do Sol.

Filizola recordou os tempos em que fora  guitarrista e arranjador do conjunto de iê-iê-iê na onda da Jovem Guarda em Recife, os Silver Jets, cujo crooner, Reginaldo Rossi, depois, se consagraria como rei da dor de cotovelo brega com Garçom. E aí Seu Lua perguntou ao violonista violado:

- Então, esse menino, tu és roqueiro, é?

- Fui, seu Luiz – respondeu Filizola.

- Então, é por isso que Zé Nêumanne gosta tanto da Asa Branca de vocês, visse? Ele é roqueiro…

E soltou uma sonora gargalhada, com a qual o Rei do Baião encerrou uma brincadeira sobre qual seria a melhor gravação do clássico dos clássicos da música regional nordestina, que Carlos Imperial divulgou que seria gravada pelos Beatles.

- Ora, a música é minha. A melhor gravação só pode ser a minha!

Será? Neste ano em que a Secretaria de Cultura de São Paulo deixou de celebrar o centenário do fundador da música regional que embala a saudade e a ginga de milhões de nordestinos que ajudaram a construir a maior cidade da América do Sul, as duas melhores homenagens feitas a ele foram registradas em 51 gravações inéditas de outras vozes.

Há alguns dias, “bomba” no youtube vídeo de versão não gravada em CD nem MP3 de Alceu Valença com a vocalista do grupo Clã Brasil, Lucyane Alves, de um xote de Zé Marcolino com quem Gonzaga se aparceirou, Numa sala de reboco. O sucesso é tal que o astro se faz acompanhar da iniciante em temporada de espetáculos pelo interior do País.

Trata-se de uma definitiva celebração da elegância, da finesse e do bom gosto no universo de cafajestice, grosseria e pornografia em que se têm transformado o Brasil em geral e o negócio da música popular em particular. É claro que a versão gravada por Gonzaga no LP A triste Partida, de 1964, é insuperável. Mas sua atualidade é reforçada pela aposta do pernambucano de São Bento do Una e da paraibana com raízes no Vale do Piancó no reino encantado da delicadeza para espantar os maus fluidos desta República da baixaria.

As outras 50 versões inéditas constam do CD triplo 100 anos de Gonzagão, produção de Thiago Marques Luiz com direção musical de Rovilson Pascoal e André Bedurê, recém-lançado pelo selo Lua, referência ao satélite da terra e também ao apelido do sanfoneiro egresso do Exu, no sertão do Araripe, Pernambuco.

A escolha dos intérpretes resultou numa demonstração sonora do imenso território musical invadido pela estética gonzaguiana. Seu Luiz não foi só o criador do baião, o gênio que inventou a estética do cancioneiro regional nordestino e o marqueteiro que fundou o negócio do forró nas festas juninas. Este lançamento fonográfico mostra um alcance maior de sua contribuição ao universo musical do Brasil. Compositor, parceiro de letristas geniais (como Humberto Teixeira e Zé Dantas), cantor e instrumentista, ele imprimiu sua marca na obra e no canto num grau que só pode ser comparado com os sambistas que inventaram os desfiles de escolas no Rio de Janeiro nos anos 30.

Gonzagão foi uma astro-rei simples, simpático e hospitaleiro que lançou estrelas da música regional, tais como Jackson do Pandeiro, Antônio Barros, Marinês e Genival Lacerda, só para citar os mais importantes. Estes hóspedes de sua casa na Ilha do Governador nos anos 50 são representados na coletânea por Dominguinhos, por ele nomeado príncipe herdeiro na sanfona, e Anastácia, que foi mulher e parceira do sanfoneiro de Garanhuns em obras primas do forró como Eu Quero um Xodó. De uma geração posterior, mas dentro da mesma linhagem, são o citado Alceu Valença, ausente da homenagem (como também o foram Antônio e Genival) e os presentes Geraldinho Azevedo, Zé Ramalho, Elba Ramalho, Cátia de França e Amelinha. Da tribo familiar do próprio Rei do Baião faz parte Daniel Gonzaga, filho de Gonzaguinha, filho adotivo de Lua.

O CD triplo mostra que a “vida de viajante” do mulato inzoneiro do Araripe trilhou trajetórias inesperadas. Wanderléa, a “irmãzinha” de Roberto e Erasmo Carlos na Jovem Guarda, mostra com quantas guitarras se pode tocar não “um”, mas “o” Baião. Edy Lima, que nos anos 1960 estreou num espetáculo de resgate da cultura popular sertaneja em dupla com Teca Calazans e, no decênio seguinte, fez sucesso em Paris com os Dzi Croquettes, contribui com o humor em que Lua também reinou. Fafá de Belém põe tacacá no semi-árido.

A homenagem, que dificilmente será superada em importância, demonstra que o centenário de Gonzagão é apenas o primeiro de uma série. Filipe Catto, 5 a Seco, Forró in the Dark, Vanguart, Karina Buhr e outros membros da geração do MP4, deixam claro que o futuro é criança na obra dele. E, no registro de Roendo Unha (dos Luizes Gonzaga e Ramalho), Célia prova que a obra do mestre oferece às novas gerações iguarias musicais do mais refinado gosto.

José Nêumanne é jornalista, escritor e editorialista do Jornal da Tarde.

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