Economia

Ainda há tempo para correção. Por Geraldo Eugênio

Ainda há tempo para correção. Por Geraldo Eugênio

24/07/2012 12:12

 

 

Entre 1978 e 2012, em apenas 40 anos, o mundo viu um fenômeno excepcional: O ressurgimento da China no cenário mundial, adotando um padrão de crescimento até então desconhecido para os padrões inglês, com a revolução industrial; ou americano, no pós-guerra. A China, unificada em 1949 com a vitória dos comunistas, depois de conviver com políticas desastrosas, haver passado por privações e fome e conturbações políticas, foi levada ao eixo do desenvolvimento econômico pelas mãos e, especialmente, pela mente de Deng Xiaoping, seu mais respeitado líder no período pós-revolucionário e que merece um estudo a parte.

Com o crescimento da demanda por matérias primas e alimentos, principalmente, por uma população de um bilhão de chineses vários países na América Latina e na África foram beneficiados e ao se iniciar o período de crescimento virtuoso do crescimento chinês, com taxas de crescimento do PIB ao redor de 10% ao ano, uma verdadeira janela de oportunidade foi aberta à economia periférica mundial.

Como sempre, demoramos a entender o que estava se passando, mas nos últimos dez anos, em particular, o Brasil viu crescer seu comércio com a China. Esta importando matérias primas e, enviando de volta toda a sorte de produtos manufaturados. Do calçado ao automóvel.  Presumiu-se que este movimento histórico não teria fim, ou pontos de inflexões. O dever de caso não foi completo e itens básicos com a educação, inovação, infraestrutura, produtividade foram esquecidos no meio da euforia.

A locomotiva chinesa começa a necessitar de reparos, para tanto, sua aceleração deve ser diminuída e, com isto, aqueles que dependiam do seu consumo crescente passam a ver suas vendas de commodities reduzidas e suas indústrias sufocadas por uma concorrência profissional, uma base industrial diversificada, sofisticada e competitiva. Este é o quadro atual do Brasil.

Pecamos em não haver investido de modo efetivo, com uma mudança na política educacional básica. Atualmente o ensino infantil do país fica entre os mais deficientes do mundo, com jovens chegando ao pré-universitário sem o domínio do vernáculo e da álgebra básica. Com esta deficiência crônica, pouco pode se esperar do ensino universitário, público ou privado, mas sem a infraestrutura laboratorial e os meios pedagógicos para a formação de bons profissionais, em particular nas áreas tecnológicas.

Neste cenário, os esforços por uma indústria competitiva desaparecem e, voltamos à estaca inicial de meros exportadores de commodities, seja o pau-brasil, açúcar, borracha ou o café. Pouco muda. Além do sistema educacional doente, há de se considerar alguns outros fatores limitantes. Um deles é a baixa produtividade da mão de obra nacional. Os salários são baixos, entretanto, comparada a produtividade de um trabalhador americano, alemão ou coreano, torna-se extremamente elevado, uma vez que a mão de obra qualificada e a cultura corporativa destes países levam a mão de obra primar pela qualidade e a produtividade.

Outro fator limitante é o sistema de coleta de impostos. Uma verdadeira derrama. Nossas taxas de impostos são as mais altas do mundo, também incomparável com qualquer país sério é a evasão fiscal, exceto dos assalariados que não conseguem esconder do fisco seus ganhos e a estes, vem o castigo divido: altos impostos e serviços deficientes seja em educação, habitação, segurança ou saúde. Levando-se em consideração que quase toda a classe média é duplamente tributada. Para por um sistema de saúde e de educação ineficientes, forçando a um segundo pagamento, privado, mesmo que isto nem sempre represente qualidade e eficiência.

Em algum momento, haveremos de dizer em claro e bom tom que não estamos bem. Que além da educação comprometida, de uma saúde capenga, somos também campeões no desvio do dinheiro público, via corrupção, o mau uso do que se aplica, especialmente em priorizarem-se investimentos que não são prioritários, sacrificando demandas claras e óbvias por qualquer cidadão de boa fé.

Nos últimos meses, o país viu seu legislativo, parte de seu judiciário e boa parte de seu executivo paralisado por investigações que iniciaram com crimes contra a ordem e o patrimônio público por uma quadrilha periférica que, dia após dia foi se aproximando do poder central, culminando com um show erótico de uma das assessoras do senado, em pleno ambiente da CPI. Fazendo com que boa parte das atenções mudasse de foco. Dos crimes de corrupção, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro, para cenas de sexo explícito e, logo depois, para o assassinato de um dos policiais que investigavam a ação dos malfeitores.

No caso do assassinato do agente da polícia federal, até o momento, do mais alto graduado funcionário da justiça às autoridades intermediárias, não se conseguiu detectar nenhuma tipo de relação entre os crimes e, assim, utilizando-se de uma sábia observação que aprendi desde a infância, mais uma vez, o assassino é quem morre.

Ao que parece chegou a hora do basta. Não se espantem se não surgir um ser messiânico, não ligado a nenhuma prática de magia negra, ou um movimento de massa que tenda a cobrar uma ação mais efetiva de seus representantes, ou em última instância abandonando os méritos da democracia clássica e pedindo outro tipo de intervenção uma vez que seus representantes traíram a confiança e já não servem como legisladores ou gestores. Algo aparentemente impensável há algum tempo, mas a cada dia mais palpável a partir do modos operandi de um sistema que deixou de ser confiável.

 

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