Opinião

Pernambuco e o comandante venezuelano Hugo Chávez

Pernambuco e o comandante venezuelano Hugo Chávez

25/03/2012 16:04

Por Geraldo Eugênio*

Chávez anda enfermo, recuperando-se em Havana de uma terceira cirurgia. Continua o mesmo falastrão, com esperança em métodos e um sistema que deixam a desejar. Divide os venezuelanos entre os que o amam e os que o detestam. Considerado salvador, por alguns, e um populista barato por um grande número de pessoas mundo a fora. Pretenso líder da América Latina que, agora, luta arduamente pela vida e por um novo mandato.

Pernambuco tem uma grande dívida para com o presidente venezuelano, valendo a pena ser lembrada por aqueles que testemunham os acontecimentos do presente e pelas gerações que virão. Senão vejamos.

Em primeiro lugar, vem Abreu e Lima, pernambucano, destemido e verdadeiro revolucionário que além de participar das revoluções e levantes do início do século 19, em Pernambuco, conseguiu, à beira da execução, fugir com um irmão para a Pensilvânia e de lá aportar na Gran Colômbia, sonho do Libertador Simón Bolívar, tornando-se um de seus principais generais e homem de sua confiança. Após a morte do Libertador, Abreu e Lima cai em desgraça e é enviado de volta ao Brasil, apenas com suas lembranças a encontrar uma família arruinada pela repressão aos que participaram dos confrontos com o império, além do confisco de seus engenhos e bens.

Como todo ser inquieto, aproxima-se da fé mórmon e começa a difundir esta religião, distribuindo seus livros e bíblias, ganhando como inimigo os dirigentes da igreja católica. Gente vingativa que, em uma carta ao governador de plantão, nega ao velho general o direito de ser enterrado no cemitério comum. Ato indigno corrigido pelo Cônsul da Inglaterra que intercedeu e fez com que o nosso herói fosse sepultado no cemitério dos ingleses.

Quase duzentos anos após sua morte, sobe ao poder na Venezuela, pelo voto, um revoltoso e disposto a ser reconhecido em todo o mundo como aquele que continuará a obra da revolução cubana, Hugo Chávez. Personagem inquieta, representando a esquerda da América Latina, fã inconteste do General Bolívar. Como bom estudante, identifica Abreu e Lima e eleva-o ao panteão dos heróis de sua revolução bolivariana.

Em um Pernambuco distante, desde as últimas décadas do século 20, há um movimento em prol de uma refinaria de petróleo a ser instalada nas imediações do Porto de Suape. Houve uma tentativa com os romenos, logo após a queda do muro de Berlim. Os países comunistas não podiam investir absolutamente em nada. Muito menos o Brasil, com uma inflação incontrolável e uma economia em coma. Nos governos posteriores insistiu-se na tese correta, mas sem efetividade política, de que Suape, tecnicamente, era o porto mais qualificado para receber tal empreendimento. Irrelevante porque, em primeiro lugar, os olhos da administração central não se dirigiam a Pernambuco, em segundo por que dizer que algo é tecnicamente recomendável, até pesava, e ainda pesa, em contrário.

Vem o governo Lula e com ele toda a boa vontade do presidente para com Pernambuco. O jogo não estava ganho. Havia outros demandantes de peso. Além dos governantes do Ceará; Sarney & Cia, no Maranhão, insistindo em Itaqui; Jaques Wagner, na Bahia, com um argumento difícil de ser rebatido. Se Camaçari funcionava, por que não ampliar a refinaria e evitar os dispêndios em construir uma nova.

Pelo que se via, mais uma vez a decisão seria postergada até não se sabe quando. É aí que surge nosso personagem. O comandante Chávez concorda que a PDVESA seja sócia de uma refinaria de petróleo, no Brasil, condicionando que este empreendimento seja realizado em Pernambuco. Na terra que é sinônimo de liberdade, das revoltas e insurreições, de Abreu e Lima e do presidente Lula, seu companheiro e amigo.

Aqui e em vários outros locais, ainda há quem se sinta chateado pelo fato do capital venezuelano não haver sido aportado. Não chegou um centavo sequer. Não importa. A construção da refinaria encontra-se com ótimo desempenho e, logo mais, dela verterá o diesel, a nafta, o coque e inúmeros outros coprodutos. O que Pernambuco ganhou foi um empreendimento que simboliza os novos tempos. O dínamo de uma economia que renasce e que se encontrava fragilizada, esmaecendo-se à margem do processo do desenvolvimento econômico do Brasil.

É bom lembrar que, sendo a refinaria especializada a operar com petróleo pesado, característica do óleo de Carabobo, das reservas do Orenoco, na Venezuela, o futuro da Refinaria Abreu e Lima está ligado àquele país que será o fornecedor da matéria prima para o óleo diesel a ser refinado em Suape.

Em pouco tempo, de um local em profunda decadência, centrado na secular indústria canavieira e seu comportamento ciclotímico, Pernambuco torna-se um dos mais importantes centros de crescimento para a indústria metal mecânica, construção civil, alimentos, naval, off shore, entre outras.

Há quem diga que o estado não se resume à refinaria, tudo bem, mas sem ela, que outros grandes empreendimentos teriam vindo parar por aqui? As petroquímicas? Os estaleiros? Sem a intervenção de Hugo Chávez, Suape continuaria sendo um grande porto, um ótimo porto à espera de um D. Sebastião a salvá-lo da inutilidade.

Não sejamos pretensiosos, mas não seria o momento de todas as repartições de Pernambuco também contarem com uma foto de Abreu e Lima e Hugo Chávez? O primeiro por ser um herói verdadeiro. O segundo, por haver desencadeado, com o presidente Lula, um novo ciclo histórico nesta terra que volta a ser um atrativo aos empreendedores e profissionais de todo o país.

 

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