Opinião

Ainda falamos de secas. Um artigo de Geraldo Eugênio

Ainda falamos de secas. Um artigo de Geraldo Eugênio

27/05/2012 17:28

Por Geraldo Eugênio*

Imagino que Graciliano Ramos, o grande escritor de Alagoas e ex-prefeito de Palmeira dos Índios, vivendo hoje, estaria incomodado. Como, ao longo dos séculos, de imperador, presidente, adivinho, mãe de santo, bispo, frade, benzedor rezadeira e tudo que é político não conseguiram resolver o problema da seca no semiárido brasileiro.

A cada cinco anos se reedita Vidas Secas. Fabiano, Baleia, a família de esquálidos, o gado morto e, para alegrar a todos os números catastróficos sobre as perdas. Perdeu-se o milho, o feijão, o jerimum, as cabras, o gado, a cana e por aí vai. Quanto mais perdas, melhor. A capacidade de barganha é aumentada, os carros pipas são multiplicados, o valor do bolsa família necessita ser revisado, os débitos dispensados e novos empréstimos vêm nos salvar.

O nosso semiárido não é o mais duro de todos. Imaginem que na grande maioria dos locais chove-se uma média de 550 milímetros por ano, o que significa 550 litros de água em um metro quadrado. Muita água. Sendo assim e sabendo que três questões são fundamentais a uma vida digna, no campo: eletricidade, água e estradas. Por que não nos detemos a resolver esta questão de uma vez por todas? O suprimento de energia está solucionado, em Pernambuco. Aí, chame-se a atenção dos esforços do Governador Miguel Arraes, com seu “Luz para Todos”, depois adotado pelo Governo Lula, em caráter nacional, visando atender a todas as famílias de Pernambuco.

Algo notável e que mudou a vida dos irmãos do campo. Segundo vem a água. Desde o presidente Fernando Henrique que se decidiu por dispor a cada família de uma cisterna de aproximadamente 16.000 litros. Primeiro serviria para acumular a água das chuvas. Em uma casa de 40 metros quadrados (cinco por oito metros) recebe 20.000 litros de chuva ao longo do ano. Depois, serviria para o depósito onde o carro pipa pudesse deixar a água, se necessário.

Elaborou-se um programa para um milhão de cisternas. Ao final do Governo Lula, 300 mil cisternas haviam sido construídas com a participação das ONGs do Nordeste, lideradas pela Associação para o Semiárido (ASA), não o Asa de Arapiraca, meu time. No início de 2011, o governo considerou que o programa havia falhado e não estava se apropriando devidamente dele. Deveria ter um novo enfoque. Ao invés das cisternas de alvenaria, adotou-se o tanque plástico, mais prático, fácil de distribuir, e que, inicialmente poderia ser mais barato. Logo viu-se que havia peixe por baixo deste angu e que além dos propósitos não serem tão nobres, retirava-se do programa aquilo que ele tinha de melhor: a educação ao nordestino de como construir uma cisterna, formatar uma placa de concreto, juntá-las, vedá-las e formar o tanque.

Indo à publico o absurdo, esquece o que foi dito e retorna-se ao original, esperando-se que as demais cisternas sejam construídas. O problema ainda não havia sido resolvido. Além da água para beber, não há como manter-se com o povo no semiárido sem uma fonte de água para produção: gado, fruteiras, hortaliças, o seja lá o que for. Identificado o problema, resta a solução. Entre ficar na dependência e na espera do desastre, por que não anteciparmos de vez por todas uma ação definitiva?

Haveria um problema em dispondo de cada imóvel do semiárido desta fonte de riqueza. Talvez não tivéssemos imagens tão chocantes para os jornais, matérias para os editoriais e dinheiro para o bolso dos aproveitadores. Não há problema. Ao menos mais um dos grandes problemas da nação estaria resolvido.

Não há como um país que testemunhou uma revolução tecnológica em seus cerrados, mudando sua face de país miserável, receptor da ajuda alimentar dos Estados Unidos, durante a Aliança para o Progresso, da qual somos gratos, e de outras nações, tornar-se um dos líderes mundiais em produção de alimentos e o terceiro mais importante país do comércio agrícola mundial, continuar, ano após ano, conviver com uma situação vergonhosa.

O semiárido tem solução e a convivência com a seca, idem. O Brasil tem enfrentado outros desafios e deles, saindo-se bem. Logo, vamos ter a seca apenas como fonte de leitura dos livros de Euclides da Cunha, com Os Sertões, Graciliano Ramos, com Vidas Secas, e Raquel de Queiroz, com O Quinze, a exemplo do que, para os Estados Unidos, é a marcante obra de Steinbeck: Vinhas da Ira.
Não dá para avançarmos no século XXI, mirando e com as mesmas práticas doentias do século XIX. Chega. Abramos os olhos.

* Geraldo Eugênio é agrônomo e pesquisador.

Comentários

Romildo Gastão da Silva - 29 de maio de 2012

Concordo com o lúcido artigo do Dr. Geraldo Eugênio. Entra governo, sai governo e parece que a seca no Nordeste é um fenômeno novo da natureza. O que falta é vontade política de resolvê-la. Apesar de repetida e cansada, a expressão “indústria da seca” no Nordeste continua atual.

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Canjos - 7 de julho de 2012

Boa constatação e razões porque não resolvemos até hoje(politica aetica) querendo solucionamos em muito menos tempo que a proxima estação chuvosa. FIM DO DNOCS e afins. Barragens submersa, poços profundos e canais vicinais.

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