Opinião

O urban sprawl metropolitano. Um artigo de Bertrand Sampaio

O urban sprawl metropolitano. Um artigo de Bertrand Sampaio

27/05/2012 17:30

Por Bertrand Sampaio*

A urbanização brasileira caracteriza-se especificamente por faces e fases. De um lado a cidade formal e, de outro, a cidade informal. Estas características são decorrentes de um planejamento fortemente influenciado pelo “Deus Mercado”, como dizia o nosso melhor geógrafo, Milton Santos, e por uma ordenação territorial segregadora. As fases deste processo são três e ocorreram no pós-guerra, acompanhando o processo de industrialização baseado na substituição da importação de bens de consumo, seguido do período do governo militar, com forte investimento estatal na infraestrutura urbana (os ditadores militares sempre gostaram da engenharia, basta ver o que fizeram Franco na Espanha e Salazar em Portugal) e, mais recentemente, com o crescimento econômico acentuado das duas últimas décadas, que marcam a fortíssima presença do mercado na (de)formação das cidades.

O sprawling urbano é denominado por diversos autores norte-americanos (notadamente os urbanistas) como um espraiamento (corruptela brasileira que indica a expansão física do espaço de forma diluída) urbano, que ocorre espacialmente de forma descontínua, atraindo soluções para alguns e muitos problemas, em grande parte, de ordem social e ambiental para muitos.

A expansão urbana de forma ilimitada, a partir da ocupação de áreas periféricas, normalmente áreas ocupadas por vegetação natural ou de atividade agrícola, é uma das formas de conceituar o urban sprawl. Incentivado pela política macroeconômica dos EUA dos anos 1950, as grandes cidades americanas cumpriram à risca seu papel de incrementar o consumo interno de veículos e, por consequência, de petróleo e ao mesmo tempo incentivar a geração de empregos na construção civil. Qualquer semelhança aqui no Brasil atual não é mera coincidência.

Neste contexto, as cidades americanas, portanto, podem se dividir em duas palavras bem marcantes na maior sociedade capitalista do mundo, o downtown, o centro comercial e financeiro com elevadas edificações circunscritas a uma área específica e, o sprawl. Uma das principais características do sprawl é a segregação das classes sociais. Nas regiões metropolitanas brasileiras não é diferente. Os pobres vão para loteamentos e conjuntos habitacionais construídos com recursos públicos e, os ricos vão para condomínios de luxo que também contam com forte subvenção estatal, sobretudo na infraestrutura física. Parece não haver possibilidade de se construir um espaço planejado não segregado no Brasil.

O desenvolvimento urbano atual está fortemente marcado por esta segregação social e pela agressão ambiental. O crescimento econômico atualmente engendrado no Estado de Pernambuco, inspirado na Revolução Industrial iniciada no Reino Unido no século XVIII e expandida para o mundo a partir do século XIX, evidencia uma atração por investimentos de sprawling urbano na Região Metropolitana do Recife. Para constatar os motivos desta comparação, basta dar uma olhada na periferia do Complexo Industrial e Portuário de Suape e avaliar no futuro os resultados sociais, econômicos e ambientais para o conjunto da sociedade (a redundância aqui é necessária) quando todos os empreendimentos estiverem a plena carga.

Alguns projetos de urban sprawling como a Reserva do Paiva, a Cidade da Copa e os condomínios da grife Alphaville, estão sendo implantados na RMR, atraindo uma parcela substancial dos ricos e da classe média alta, residentes ou não na região ou no Estado. Ao mesmo tempo diversos loteamentos do tipo Minha Casa Minha Vida (ou “Minha Casa Minha Dívida”, como preferem gracejar alguns), vêm sendo implantados em distintos locais, com destaque para um conjunto habitacional em Jaboatão dos Guararapes, com 864 unidades residenciais, destinado às classes C e D.A especulação imobiliária agradece à implantação dos interstícios urbanos que vão sendo criados a posteriori, valorizando terrenos e ampliando o desmatamento e os problemas de mobilidade das pessoas.

Paralelamente, deve ocorrer um processo de desvalorização imobiliária nas áreas centrais, pois uma parcela dos moradores de classe media alta dos arranha-céus recentemente implantados no Recife começa a se deslocar para estes condomínios de luxo. Possivelmente haverá uma atração de moradores de um perfil econômico mais baixo para estes prédios com rebatimento na qualidade dos mesmos.

Diversas são as consequências atribuídas ao urban sprawl, dentre as quais os impactos ambientais decorrentes do incremento do uso do automóvel, do desmatamento de áreas com vegetação natural pois exige espaços enormes para sua implantação, do aumento das emissões de gases de efeito estufa (GEE), elevado consumo de energia elétrica, além da segregação social, já abordada anteriormente.

Nos EUA, a população com melhores condições financeiras procura os subúrbios, influenciada pela mídia, em busca de mais liberdade, mais espaço e menos violência. Procura assim no subúrbio uma melhor qualidade de vida. Vai-se abandonando as cidades e trazendo consigo as oportunidades de empregos e os incentivos fiscais e subsídios governamentais. Aqui, também, qualquer semelhança não é mera coincidência.

Com isto, vai-se degradando cada vez mais o meio ambiente, tornando-se cada vez mais dependente dos automóveis, e exigindo cada vez mais obras de infraestrutura e criação e conservação de novas áreas de lazer, escolas, bairros, etc.

Em artigo recente, o pesquisador da Unicamp/Nepo, Alberto Jakob, aborda sobre o vídeo Understanding Urban Sprawl do cientista e ambientalista David Gurin, o qual analisa as áreas de Los Angeles e Portland (EUA), Cidade do México (México) e Vancouver (Canadá), e mostra que a população procura os subúrbios em busca de mais espaço, casas maiores, a fuga das preocupações da cidade, da poluição sonora e de sua violência. Cita que as rodovias vão penetrando nas áreas rurais como “dedos entrando em uma torta” e assim as fazendas vão sendo parceladas, gerando a necessidade de se implantar a infraestrutura exigida pelos novos moradores da área recém-criada, penalizando os custos de reurbanização das cidades já constituídas e aumentando o tempo de viagem necessário nos deslocamentos por automóvel.

Segundo este autor, uma cena interessante mostrada no vídeo se passa em Fresno (California, EUA), onde é apresentado o primeiro subúrbio de aviões do mundo, o Sierra SkyPark, com ruas largas e garagens altas, para as pessoas estacionarem seus pequenos aviões e fugirem assim do trânsito diário. A conclusão é a de que ao invés de tentar conter a fuga das pessoas dos centros das cidades, a política adotada é a de dar maiores condições a estas pessoas de morarem afastadas dos centros. É preciso que a sociedade local comece a refletir melhor sobre estas questões. Não é mera coincidência.

*Bertrand Sampaio é engenheiro e professor.

 


Comentários

Rubens A Costa - 29 de maio de 2012

Muito se fala, mas, poucos conseguem ter uma percepção crítica, contundente e reflexiva, do modelo de desenvolvimento urbanístico, que está sendo implementado em nossa região. Estamos sendo espectadores passivos, do nascimento do “Ovo da Serpente” do planejamento urbano.
Parabéns, professor Bertrand !

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Eduardo Maia - 29 de maio de 2012

Parabéns camarada Bertrand. Acho que você conseguiu resumir em pequenos parágrafos uma grande realidade que nos aflinge atualmente.

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PEDRO PAULO SPENCER SOARES - 29 de maio de 2012

Não sei muito disso aí (sprawl), mas acho que com o advento do Estatuto das Cidades, que foi aprovado pela Lei Federal nº 10.257, de 10 de julho de 2001, foi estabelecido o marco regulatório da política urbana, por exemplo. O maior problema é que, costumeiramente, nos habituamos a deixar para lá e não cobrar a continuidade de muitas das políticas públicas implantadas no Brasil. Acredito, sim, que esse cenário, tão logo, será modificado, fazendo com que possamos exercer melhor a nossa cidadania e ter respeitada a nossa dignidade. É pagar para ver?,

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Marcelo S. Alencar - 30 de agosto de 2012

Talvez a alternativa para não concentrar 100% a população em macro-aglomerados urbanos seja interiorizar o desenvolvimento. Criar arranjos produtivos distribuídos em cidades menores, de forma que nenhuma cidade concentre completamente a riqueza, mas que seja possível estabelecer relações de troca entre elas para dinamizar a economia regional. Isso poderia começar com pequenas indústrias, como fábricas de bicicletas baratas, que seriam muito úteis no interior, e evoluir para outros tipos de produção.

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