Opinião

Da euforia a dúvida. Confira o inédito artigo de Geraldo Eugenio

Da euforia a dúvida. Confira o inédito artigo de Geraldo Eugenio

23/05/2012 22:55

 

Nas últimas semanas várias publicações especializadas em economia colocam em dúvida a capacidade do Brasil em sustentar um crescimento robusto por muito tempo, fazendo referências à números decepcionantes de crescimento no último ano, 2,7%, contra uma média de 4,6% para os demais BRICS. Sinais de desaquecimento na economia são evidentes e o impacto sobre a construção civil já é sentido.

 Algumas questões que põe em dúvida um crescimento de longo prazo devem ser analisadas com frieza, senão vejamos:

 

  1. Custo Brasil – Não me refiro ao custo de logística, da carga tributária, ou da burocracia. Refiro-me ao fato de não haver obra alguma, seja hospital, estrada, estádio, barragem, prédio que não tenha um orçamento inicial significativamente superior ao que deveria e, ao seu final, não haver este orçamento sido multiplicado por 4 a 5 vezes. Exemplos: As obras do Pan Americano e, agora, os estádios da Copa do Mundo.
  2. Custo de hospedagem no Brasil – Hoje, o país é um dos mais caros em todo o mundo. A hospedagem em hotéis tornou-se proibitiva. Qualquer espelunca, em qualquer cidade custa o equivalente a 300 reais (150 dólares), o que na Europa ou nos Estados Unidos significa um hotel de boa qualidade. Exemplo: Negação do Parlamento Europeu em participar da Rio + 20
  3. Não cumprimento de prazos e a cultura do aditivo – Pode-se dizer com uma margem de erro extremamente pequena que nenhuma obra é concluída obedecendo-se o cronograma inicial, seja pública ou privada. No caso da pública, o problema é grave. Normalmente, as empresas contratadas atrasam deliberadamente o andamento para usarem o famoso argumento da necessidade do ´aditivo` aos contratos, de 25%  do valor, conforme faculta a lei em casos de excepcionalidade. Aqui tornou-se regra. Há situações em que antes do início das obras já se discute como se fará o ´aditivo`.
  4. Corrupção – Neste momento alguns governos estaduais encontram-se paralisados, com seus governantes tentando à toda prova safar-se  da convocação para depor em uma CPI surgida a partir da descoberta de práticas criminosas de um bando com características regionais, especializados em caça-níqueis, com tentáculos nas entranhas de todos os da república. O que, à princípio, imaginava-se ser uma jogada em que levaria um partido à lona, viu-se que quase todos estão implicados, mesmo sabendo-se que as investigações encontram-se em estágio preliminar.
  5. Infraestrutura deficiente – Das cidades ao campo a situação é igualmente precária. Ruas esburacadas, estradas intransitáveis, ferrovias fantasmas, aeroportos mal conservados. Contratos mal negociados, serviços mal feitos, não supervisionados, resultando em obras que jamais deveriam ter sido aceitas. Todos temos, não poucos exemplos, de estradas que, antes de se instalar a sinalização horizontal, os buracos já começaram a surgir, das ruas que documentalmente estão pavimentadas e, de fato, nunca viram uma lâmina de asfalto, das escolas, hospitais, pontilhões e viadutos mal construídos que merecem e, consequentemente demandam reparos contínuos.
  6. Políticas tortuosas – O debate iniciado há dois anos sobre o código florestal é um exemplo típico. Iniciou-se uma discussão baseada em princípios falsos: a. O Brasil teria o sido o país que menos havia desmatado, e, logo, não teria que dar explicações a ninguém. Um crime não justifica o outro. Se país A, B, C ou D, desmatou e dilapidou seu patrimônio natural isto não é justificativa para o Brasil fazer o mesmo; b. A grande maioria das pequenas propriedades estariam descumprindo a legislação ambiental e aí, o que seria do pobre produtor de maça, em Santa Catarina, do assentado da reforma agrária? Pura hipocrisia. Ninguém lembrava ou morria de amores pelo pequeno produtor, mas conseguiram trazer para perto de si defensores pobres e oprimidos que deram as mãos aos paladinos da ´modernização` do código florestal caduco e que já não atendia aos anseios da nação; c. Devido ao tamanho dos imóveis, recomendou-se a redução drástica da área de proteção ambiental à margem dos córregos, arroios, riachos e rios. Aí a coisa foi tão absurda de, depois de algum tempo foram forçados a admitir que critérios técnicos deveriam ser adotados para se determinar qual a largura destas faixas, mesmo assim, insistindo-se na redução. Outra boa dose de cinismo. Ao se empregar os cálculos corretos, na grande maioria das situações a faixa de preservação deve ser superior ao que hoje recomenda a legislação, não menos.

 

Nem tudo está perdido. O país conta com algumas vantagens que o colocam na vanguarda da economia mundial e na esperança de se constituir em um líder e representante do hemisfério Sul. Algumas medidas podem ser lembradas, a exemplo de:

  1. Construir uma política de longo prazo de agregação de valor aos produtos primários, em especial, alimentos e minérios.
  2. Consolidar a expansão do ensino universitário aportando qualidade às novas escolas – Muito foi feito nos últimos dez anos. As 14 novas universidades, os 110 novos campi, o Prouni, que salvou as escolas privadas e colocou o jovem pobre nas universidades, é um grande exemplo.
  3. Elevar os investimentos em ciência e tecnologia – Nos últimos dois anos o que se tem testemunhado é um decréscimo significativo nestes números. Uma pena. Não há futuro sem tecnologia e inovação.
  4. Administrar a economia com simplicidade – Nada de invenção. Juros baixos, câmbio flutuante e abertura aos capitais estrangeiros, dentro de regras sãs e investimentos estratégicos. O empresariado tem que fazer sua parte. Há duas semanas a choradeira e crítica ao governo devia-se a uma moeda supervalorizada. Hoje, critica-se pela subvalorização. Não dá para ter moedas de conveniência. Uma para comprar ao valor que se pretende e outra para pagar como gostaria.
  5. Investir na produção de alimentos e matérias primas agrícolas – Não desprezar a galinha dos ovos de ouro – É a agricultura e a pecuária que, ao longo da última década vem sendo o sustentáculo desta economia e de suas contas. O Brasil pode ser o mais importante ator no mercado internacional de alimentos, com práticas sustentáveis, políticas de crédito, seguro e logística, corretas e com isto, ter a capacidade de ter em sua agricultura este ´air bag` que falta à maioria dos países.

E vamos em frente. Não dá para parar e perder o tempo com detalhes ou na defesa de malfeitos e malfeitores. Há uma juventude à espera de um futuro decente.

Geraldo Eugênio – May 19 2012

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