Opinião

O que o Brasil mais precisa é de menos São Paulo

O que o Brasil mais precisa é de menos São Paulo

24/03/2012 13:01

Por Luís Costa Pinto*

Só mesmo um paulistano médio, ou alguém muito desinformado, para crer que o mais decisivo embate para a política nacional, em 2012, dar-se-á na capital paulista e os destinos do governo da presidente Dilma Rousseff e da oposição a ela estão ligados ao resultado daquelas urnas.

Em geral, os que pensam como paulistanos, os que os mimetizam ou quem enxerga o Brasil sob a ótica de São Paulo são desinformados.

A única eleição municipal em que se jogou uma partida federal foi a de 1985. Ainda assim, aquelas eram disputas solteiras, apenas nas capitais estaduais, realizadas na onda de restauração do Estado Democrático e embutiam fortes cores de reparação das arbitrariedades consumadas pelos militares.

A despeito de tudo, quem venceu em São Paulo foi Jânio Quadros, justo o elemento patético usado pelas vivandeiras e pela caserna para justificar o golpe de 1964. Desde então jamais uma eleição municipal guardou relação com eleições presidenciais que ocorrem dois anos depois. A única exceção, que confirma a regra, deu-se em 2000 e em São Paulo: Marta Suplicy se elegeu depois do naufrágio antiético da administração de Celso Pitta. Mesmo assim Lula terminou por vencer o pleito de 2002 perdendo na capital paulista nos dois turnos. E Marta não se reelegeu em 2004, mas dois anos depois viu Lula se reeleger.

Logo, só crê que os destinos do Brasil estarão umbilicalmente ligados aos rumos que trilhar José Serra e o PSDB paulista nas urnas de outubro aqueles que olham para crinas de cavalos e enxergam chifres.

Há um exercício didático para entender o país a partir do tabuleiro eleitoral de 2012 e que deve ser feito, obrigatoriamente, por quem não pretende ler o mundo sob o jugo paulicêntrico que se tenta impor. Minas Gerais, Rio de Janeiro, Ceará, Paraná, Rio Grande do Sul e em especial Pernambuco têm muito a ver com isso.

Forte em Minas, o PSDB de lá está mais atrelado ao PSB do prefeito Márcio Lacerda, que tende a se reeleger, do que à seccional tucana de São Paulo.

Forte no Paraná, onde o governador Beto Richa desponta como liderança promissora, o PSDB paranaense apoiará o PSB para a prefeitura de Curitiba e o PT está esfacelado na capital paranaense. Não deve sequer ter candidato.

Frágil no Rio, onde viu escorrer-lhe pelas mãos a filiação do prefeito peemedebista Eduardo Paes, o PSDB disputará o pleito municipal carioca como o Olaria disputa o campeonato estadual fluminense: rezando para não ser rebaixado à segunda divisão, mas distante do bloco dos grandes liderado pelo PMDB e integrado por PT e, vejam só, pelo PSB também.

Destroçado no Ceará, onde restou a Tasso Jereissati ter de apoiar Marcos Cals, filho do coronel Cesar Cals, prócer da trinca de coronéis derrotada pelo próprio Tasso em 1986, o PSDB procura um atalho na rodovia Leste-Oeste que une as duas bandas cearenses para tentar se reerguer. Ali, quem detém a voz de comando da política local é o condomínio formado pelo PSB do governador Cid Gomes, pelo PMDB do senador Eunício Oliveira e pelo PT da prefeita de Fortaleza, Luizianne Lins. A chance de cisão na ponte que ligou esses três pilares nos últimos oito anos é muito forte. O PT deverá caminhar para um lado e PSB e PMDB, aliados, para outro.

No Rio Grande do Sul desenha-se um amplo cardápio de possibilidades. Ali, estado em que as tradições são mais arraigadas, nem PSDB nem PSB têm vastas ambições na disputa pelo comando de Porto Alegre. Mas o PSB tende a estar próximo de quem detiver o bilhete vencedor de outubro – seja ele o prefeito José Fortunatti, do PDT, ou Manuela D´Ávila, do PCdoB, ou ainda aos petistas que definirão o candidato em prévias.

E em Pernambuco o PSB do governador Eduardo Campos tem nas mãos um amplo cardápio de possibilidades – todas elas com chances de se revelar o bilhete vencedor e de seguir pondo o rol de adversários reais e potenciais sob tutela dos seus projetos. Dentro do PT há três alternativas para os socialistas seguirem: ir com o prefeito para a reeleição, traí-lo com alguém de casa e capaz de aglutinar força interna como o senador Humberto Costa ou apunhalá-lo e fechar com o ex João Paulo Lima e Silva. Há a possibilidade remota de os socialistas terem candidato próprio. Vitória com o PT é um jogo de ganha-ganha porque praticamente subscreve a aliança para 2014 independente do nome que estiver no comando da cidade. Derrota com o PT cria o constrangimento futuro para o aliado se tornar adversário. Derrota com candidato próprio, caso a prefeitura do Recife saia da órbita dos partidos aliados e hoje leais ao governador pode vir a ser um jogo de perde-ganha porque abrirá uma temporada de caça às bruxas dentro do PT que certamente inviabilizará uma candidatura majoritária dentro de dois anos que galvanize apoios do sertão ao cais.

Pois bem, sem passar por São Paulo, mas retendo-me em sete dos oito colégios eleitorais mais relevantes do país (só faltou a Bahia, onde o jogo passa ao largo dessas forças), foi possível traçar um cenário em que o PSB dará saltos vistosos caso acerte em cheio o bilhete que vai comprar nessa temporada pré-eleitoral.

Em São Paulo a peleja é para profissionais de sangue frio. José Serra, cardeal do PSDB, alçado à condição formal de candidato, saltou para 30% das intenções de voto e atiçou os diretórios estadual e municipal paulista e paulistano e avançarem o sinal e declararem apoio ao tucano. Eduardo Campos desembarcou na Paulicéia para deixar claro que a partida não se ganha no grito – e quem tem a bola deve ser ouvido. O PSB paulista até pode ir com Serra, para será um parto doloroso. Há um compromisso de Campos com o PT e com Fernando Haddad e o fiador de tudo isso é o ex-presidente Lula. E há uma ponderável chance de os socialistas portarem-se como a Suíça na Segunda Guerra Mundial: declaradamente neutros, os suíços permitiram que seus bancos fossem usados pelos nazistas para que fossem depositados ilegalmente os frutos das pilhagens criminosas promovidas contra os judeus das nações ocupadas. Essa “saída Suíça” se dará, para o PSB paulista, se eles decidirem ir com a candidatura de Gabriel Chalita (PMDB), viabilizando-o de vez, e fazendo com que Serra e Haddad fiquem a meio caminho. Sempre será possível alegar que o PMDB integra o arco de apoio federal à presidente Dilma e o sofisma será duramente deglutido – mas será.

Passadas as eleições municipais estará inaugurada a temporada de sucessões nas presidências da Câmara e do Senado. Elas só se consumarão em fevereiro de 2013, mas a temporada de caça ao voto e de traições silenciosas já começou em Brasília. Revigorado pelas urnas o PSB se dedicará uma ardilosa tessitura de um bloco parlamentar independente do PT e do PMDB, governista, mas com personalidade. Pretende reunir seus aliados de sempre – PDT, PTB, PSD – e neodesgarrados como PV, PCdoB, PSC e PTC, por exemplo. Obtendo sucesso esse bloco será capaz de eleger o presidente da Câmara e aí será possível dizer, enfim, que a política nacional ganhou de fato um novo player – e ele não tem origem nem no PT, nem no PSDB, nem em São Paulo (seja trajando os macacões das portas de fábrica, seja envergando os blazers quadriculados dos acadêmicos da USP e da Unicamp).

Quem seguir acreditando que a disputa em São Paulo encerra as contradições e soluções para o Brasil terminará por descobrir, ao cabo desses oito meses de campanha municipal, que aquilo de que o país mais precisa é de menos São Paulo. É de menos paulicentrismo.

 

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Comentários

Mauricio Savarese - 25 de março de 2012

A cidade de São Paulo tem o quarto maior orçamento do Brasil. Só perde para o Estado de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. A vitória de Erundina em 1988 levou o PT ao segundo turno da eleição presidencial de 89. As vitórias de Maluf e Pitta facilitaram as vitórias de FHC em primeiro turno em 1994 e 1998. A vitória de Marta Suplicy em 2000 foi prenúncio da vitória de Lula em 2002. Serra só continua no jogo presidencial porque venceu em 2004, com recall de 2002, e emplacou seu sucessor – o fundador do partido que fez minguar a oposição em Brasília no último ano. Com todo o respeito, mas acho que sua análise está mais calcada em regionalismo do que em fatos.

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Mauricio Savarese - 25 de março de 2012

A verdade é que São Paulo tem a única eleição municipal que – além do orçamento e do número de eleitores – também pesa por produzir candidatos, tanto como articuladores como na condição de protagonistas. E é também uma rara eleição municipal com imprensa cobrindo de verdade, e não fazendo propaganda travestida de reportagem e de opinião. Querer dar mais peso a eleições onde nenhum desses elementos é tão importante me parece muito caipirocêntrico.

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Luis Costa Pinto - 26 de março de 2012

Caro Mauricio Savarese, seus argumentos tentam, sem sucesso, desqualificar a tese levantada por mim. É falso crer que a ida de Lula ao segundo turno em 1989 se deu por causa da vitória de Erundina em 1988. Erundina venceu a última eleição sem dois turnos. Se houvesse segundo turno provavelmente ela a teria perdido. E ela a venceu em razão dos evantos ocorridos em Volta Redonda. Argumentar que Serra de elegeu em 2004 com o recall de 2002 é um ardil mental: ali, partiu-se do todo – uma eleição federal – para a parte – uma eleição municipal. E não o contrário, que é o argumento do momento. Jogar no ventilador o tamanho do orçamento da cidade de São Paulo não quer dizer nada. Fosse assim, o governador de São Paulo seria de fato a segunda personalidade mais importante da República. E não o é. Geraldo Alckmin deixou o governo estadual em 2006 para ser candidato e não conseguiu convencer a maioria de suas virtudes administrativas – e olha que as tem. Em 2010 deu-se o mesmo com Serra, mais uma vez. O que defendo: eleição municipal, mesmo a paulistana, não é definidora para eleição presidencial. Nunca foi. Prefeito é gerente. A população busca o melhor perfil para administrar seu dia a dia. E os políticos paulistanos crêem que só porque pilotam o maior orçamento municipal do país a dimensão deles é maior que a dos outros. Não é. E eu inverteria essa sua blague – caipirocentrismo é o que emana do miolo do Brasil para as franjas do país. Em verdade vos digo: Recife é uma cidade de mais denso olhar cosmopolitano sobre o país, assim como o Rio, Salvador e Belo Horizonte. Abraços, Luís Costa Pinto.

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Pompeu Cantarelli - 28 de março de 2012

Prezado Lula(permita-me, ainda, lhe chamar desta forma)
A sua análise sobre as eleições municipais de 2012, entendo ser excepcional, mormente por ser fundamentada em fatos pretéritos, os quais justificam a sua tese. Tentar desqualificá-la é quiçá manter-se na soberba tão fragilizada no âmbito da política. Exemplo a ser lembrado são as eleições “praticamente ganhas” por Roberto Magalhães para o Senado e posteriormente para a Prefeitura do Recife. A pulverização de lideranças por todo o país aliado aos fatos políticos, os quais chegam em tempo real ao conhecimento da população, dentre outros motivos, impedem que a cidade de São Paulo venha a ser a mentora dos desígnios da política brasileira.

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Luis Costa Pinto - 28 de março de 2012

Caro Pompeu, obrigado pelas palavras e que sigamos no debate. Isso é o que vale.

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Roberlan - 16 de agosto de 2012

Eita Luis. Quando estudei com você no CEUB não sabia que se tratava de um jornalista tão poderoso. Seu nome foi citado bastante hoje hein! Desejo o melhor a vc. Tenho certeza que se trata de injustiça.

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