Opinião

Saudades das antigas CPIs, por Ricardo Noblat

Saudades das antigas CPIs, por Ricardo Noblat

17/05/2012 11:10

Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) ou Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) é instrumento da minoria para atanazar a vida da maioria. Sempre foi assim e sempre será em qualquer parte onde haja democracia – para valer ou de mentirinha.

Então Lula, ainda sob o efeito dos remédios que tomou para se curar do câncer na laringe, trocou o sinal e inventou a CPI da maioria para incomodar uma minoria que não faz mal a ninguém – muito menos ao governo. Por incompetente, só faz mal a ela mesma.

Lula queria pegar Marconi Perillo (PSDB), governador de Goiás e seu desafeto pessoal; a VEJA, a quem acusa de ter inventado escândalos para derrubar o seu governo; e retardar o julgamento do mensalão.

Coberto de escoriações, Perillo pediu que a Justiça investigasse suas ligações com o bicheiro Carlinhos Cachoeira. Ofereceu-se para depor na CPI. Sairá machucado. Mas como controla a Assembleia Legislativa do seu Estado, preservará o mandato.

Delegados da Polícia Federal disseram na CPI não ter encontrado nada demais nas conversas entre Cachoeira e Policarpo Jr., repórter da VEJA. O Partido da Imprensa Governista (PIG) na internet não se conformou com a palavra deles.

Se não desse para retardar o julgamento do mensalão, a CPI deveria servir pelo menos para dividir com ele a atenção do distinto e manipulável público. Era o que imaginava Lula. Deu errado. A CPI apressou o julgamento.

CPI de minoria é uma zorra atraente e tropical. Há muitas brigas e intensos debates. A maioria tenta liquidá-la de cara. E quando não consegue faz tudo para que avance aos tropeções.

Às vezes a CPI escapa do fracasso porque o acaso lhe presenteia com um motorista de boa memória, uma secretária das mais certinhas, a ex-mulher repleta de mágoas ou um documento comprometedor.

CPI da maioria, como esta do Cachoeira, é de um comportamento exemplar. E por isso chatíssima. Sem grandes emoções. Tudo segue sob o controle exclusivo do governo.

Do governo, não, que dona Dilma faz de conta que nada tem a ver com a CPI. Nega que tenha cedido ao apelo de Lula para vê-la instalada.

Para não irritar dona Dilma: tudo segue sob o controle exclusivo dos partidos que por “coincidência” apoiam o governo. Melhor assim?

Sem essa de permitir a divisão da CPI em sub-relatorias, como sugeriu a oposição. Pegaria mal para os partidos do governo indicar todos os sub-relatores. Fiquemos, portanto, apenas com um relator.

Sem essa de dividir com a oposição o comando da CPI, como no passado remoto. Bons tempos aqueles. O governo emplacava o presidente ou o relator da CPI. O cargo que sobrasse era da oposição.

Agora, não. O presidente é do PMDB chapa branca. A relatoria, do PT da confiança irrestrita de Dilma.

Bons tempos também foram aqueles onde as informações circulavam livremente entre os integrantes da CPI – e deles acabavam vazando para os jornalistas.

Antes que me esqueça: o direito à informação não é dos jornalistas, é do público, que se tivesse consciência disso brigaria mais por ele.

Adiante. As informações recebidas pela CPI do Cachoeira são tratadas como segredos de Estado. Ou segredos nucleares. Ou algo do gênero.

O grosso do que uma CPI como essa teria de apurar já foi apurado pela Polícia Federal e o Ministério Público. Não se espere que ela progrida na base de confissões espontâneas ou forçadas. Nem por isso lhe faltará serviço se quiser pegar no pesado.

E a Delta, hein? Cachoeira era sócio do diretor da Delta no Centro-Oeste. E Fernando Cavendish, dono da Delta, levou um susto quando soube. Dá para acreditar?

A Delta está caindo de madura no colo da CPI. Bem como a verdade a respeito de uma eventual parceria entre Cachoeira e Cavendish.

De resto, por que um frigorífico onde o BNDES injetou dinheiro está para comprar sem desembolsar um tostão a empreiteira que mais cresceu no país nos últimos anos? Que tem obras em todos os Estados?

Cavendish conformou-se em perder o império que construiu?

Toda essa história cheira muito mal. Seria um prato cheio para CPIs ao estilo das de antigamente.

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