Opinião

Hollande e a nova França, por Geraldo Eugênio

Hollande e a nova França, por Geraldo Eugênio

14/05/2012 17:32

Duas visões de mundo em embate: o neoliberalismo puro sangue, representado pela dupla Merkel-Sarkozy, e o clássico socialismo, à moda europeia, representado por François Hollande.

No primeiro, diria, o modelo bancário, a conta tem que fechar ao fim do dia e, independente do que possa haver ocorrido, inclusive, deixando-se de lado a responsabilidade do credor, em haver enchido a conta, de forma temerosa, de quem não poderia pagar, estes teriam que saldar a dívida, mesmo sacrificando o leite das crianças e a educação de seus filhos.

A linha de frente do grupo, encabeçada pela chanceler Angela Merkel, tinha como acólito o presidente francês, que passou a fazer o papel de seu “Sancho Pança”. Um Sancho boquirroto, enérgico, até ansioso e pronto a mostrar a cara a qualquer fotógrafo ou câmara, até quando escondeu o relógio com medo dos eleitores em um corpo a corpo de campanha.

A chanceler, no papel de von Bismark, sentiu-se a comandante da Europa, a Valquíria que mostraria aos incautos, ineficientes e perdulários, a forma mais precisa de retirar o continente do caos e mostrar que ela, Sarkozy e alguns endividados, aí entra a figura dos governos de Portugal, Espanha e Grécia, mostrariam como os miseráveis apertariam o cinto e trariam a prosperidade de volta.

A Europa não é a América Latina. Há alguns anos um amigo português que nos visitava, contemplando a nossa bela paisagem tropical, disse que não compreendia como poderíamos passar fome. Aqui, a vegetação é luxuriosa, as frutas permanentes, o clima amigo. O velho continente não é bem assim. Ou se tinha com o que comprar ou se pereceria na mais rigorosa fome, à espera da compaixão. É o que ocorre, hoje, nos países endividados. Seus empregados são os que menos recebem, além e, nos últimos três anos, somente observam redução de salário. Aí, o que resta é o desânimo, o medo, a revolta e as ocupações de praças de milhões de jovens, que chegam aos trinta e aos quarenta e não vislumbram quando ou se um dia sairão da casa de seus pais.

Ao desesperado é difícil tentar mostrar que o futuro será melhor. Não por que este seja um incauto, mas por que a necessidade fala mais alto e, em ambientes de tensão, sequer a esperança consegue ser retida na caixa de Pandora.

A França, por seu lado, como imaginava Sarkozy, não estava em condições de cantar de galo e concordar com todas as posições dos vizinhos ricos, alemães. Mesmo assim, seu presidente preferiu este caminho, até quando, no início da campanha, de modo vergonhoso tentou esconder o apoio de sua mais importante aliada e chefe: a chanceler alemã.

Enquanto isto, um ser humano comum, sem brilho, charme ou encanto aparente, conseguia às expensas da humilhação sofrida pelo principal candidato do Partido Socialista francês, que, após um encontro mal explicado com uma camareira em um hotel em Nova York, amargou vários dias em uma prisão americana e viu sua vida política pulverizada. Há quem diga, que apesar da falta grotesca, tudo havia sido armado pelo pessoal de Sarkozy.

Hollande foi escolhido candidato pelo PS e, como única forma de viabilizar um discurso de esquerda, deixou claro que algo estava errado e que os acordos estabelecidos ao resto da Europa pela dupla Merkel-Sarkozy não trariam bons frutos e deveriam ser revistos. A Europa necessita de empregos e investimentos, não somente de arrochos fiscais. Tais declarações caíram como uma bomba no cenário político europeu. A tal ponto, da chanceler, em um momento de extrema arrogância e pouco tato, recusar receber o candidato socialista. Antes de Sarkozy negar sua companhia durante a campanha eleitoral, é óbvio.

Inspirado em Lula que, em seu melhor momento como presidente, no deflagrar da crise econômica, ao final de 2008, anteviu que não seria o aperto fiscal, a redução dos salários e dos empregos que faria o Brasil trafegar as águas turbulentas, mas a manutenção destes e um forte estímulo aos investimentos públicos, através de seu Programa de Aceleração do Crescimento, Hollande deixa claro que, não apenas a França, mas todos os endividados e economias sob risco, aí incluindo-se Itália, Espanha, Grécia e Portugal, não suportariam esperar por muito tempo o estágio de instabilidade social em efervescência na Europa e que um modelo menos ortodoxo, obrigatoriamente, deveria ser posto apresentado ao continente.

O contraditório de tudo é que o ex-presidente Lula, apesar do caloroso telegrama e declaração pró Hollande, após as eleições, era um dos amigos de todas as horas do derrotado Sarkozy, a quem, degustando os melhores vinhos franceses, havia prometido a compra, pelo Brasil, dos caças franceses, mais caros, menos conhecidos e cuja empresa não se comprometia em transferir tecnologia estratégica alguma ao Brasil.

Hollande toma posse nesta terça-feira (15). Agora, resta-lhe ir à arena e enfrentar a fera: a chanceler alemã. Deixar claro que a política de austeridade deverá ser revista e para o bem dos lambe-botas da plateia, que apesar de haverem concordado com o pacto duro, que no fundo beneficia a banca e as grandes corporações, ou se muda, pela via democrática, ou a Europa enfrentará outra Bastilhas, por meios nem sempre pacíficos. Espera-se um entendimento, afinal, a política não vive de vãs amizades, mas de resultados. Que satisfaça o banqueiro, mas que não esqueça os milhões de ´sans cullotes`, que estão chegando à porta dos palácios.

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