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Andy Warhol: Os 25 anos da morte do multifacetado artista

Andy Warhol: Os 25 anos da morte do multifacetado artista

27/04/2012 06:11

Por José Caminha*

Uma instalação ambulante de cabelos descoloridos, de óculos e roupas bizarras chamada Andy Warhol – homossexual assumido na conservadora sociedade norte-americana, hipocondríaco, cínico e, acima de tudo, um visionário. Uma figura de abstração… um símbolo da cultura POP. No ano em que se completa 25 anos da sua morte, esse artigo se presta a analisar algumas das facetas deste publicitário, pintor, serigrafista, ilustrador, cinegrafista e produtor artístico que construiu, ao redor das suas frases polêmicas e de sua figura exótica, o mito do artista contemporâneo. Neste sentido, observar a importância crescente que exerce, naquele período, a relação entre espaço na mídia e reconhecimento de uma arte acessível à massa mas que traz em si a marca da ironia e tematiza a alienação.

As questões trazidas à baila pelos movimentos de Vanguarda, que fizeram a Arte voltar-se contra si mesma na medida em que eles deixaram de reproduzir o “real”, e por filósofos que enxergaram na presença dos meios de comunicação um novo paradigma para a Arte, colocaram-na num campo de batalha na qual ela teve que lutar contra (ou servir-se) da ideologia que a cercava.

Neste cenário, é emblemática a figura de Andy Warhol: dentre as suas obras qual a que se destaca dentro do modo de produção quase industrial por ele adotada na segunda metade do século XX? Seriam as imagens pegas emprestadas de Marylin, Elvis, Nixon e Mao-Tsé-Tung? Ou os instantâneos de Jane Fonda, Mick Jagger e Pelé? Talvez a imagem da sopa de tomate Campbell’s, na sua representativa intersecção entre arte e mercadoria…

Arte em ritmo industrial

O historiador italiano Giulio Carlo Argan, Ao falar da POP ART, e de Lienchtenstein, refere-se a teoria da informação formulada pelo canadense Marshall MacLuhan, segundo a qual o que importa não é mais o conteúdo da mensagem, mas a maneira como ela é transmitida – o meio. Ao olhar as tiras de um quadrinho, diz Argan, não interessa o final da estória, mas o fato de que nos inserirmos numa rede com milhões de outras pessoas, com as quais dividimos ansiedades e indiferença para, no dia seguinte, nos reconectarmos a essas emoções vivas mas inconsistentes. Esse impacto sensorial que nos integra ao que MacLuhan chamou de “aldeia global” não vale ser discutido apenas quando relacionado ao mundo do entretenimento em obras como as do folhetim eletrônico ou em produtos como álbuns de figurinhas da copa: nos faz pensar em como os Meios de Comunicação de Massa e a Indústria Cultural transformaram os paradigmas da arte.

Formada essencialmente pelos mass media (radio, cinema, publicidade, TV), a tal Industria Cultural logo se transformou num dos principais instrumentos para a funcionalidade da sociedade até os dias de hoje, atuando como um sistema, tanto operativamente (enredo, imagens, sons…) quanto na diversidade de meios e gêneros, traduzindo um ambiente em que a tecnologia exerce o seu poder e fascínio sobre a sociedade, como força mantenedora do status quo: “a racionalidade técnica é hoje a racionalidade do próprio domínio, é o caráter repressivo da sociedade que se auto-aliena”.

Por um lado, podemos dizer que a Indústria Cultural exerce esse poder de forma desigual no trabalho, no lazer e na vida cotidiana do indivíduo, gerando uma atrofia na imaginação do consumidor dos bens culturais. Por outro lado temos uma visão menos pessimista por parte de pensadores como Walter Benjamin – também da Escola de Frankfurt – que acreditava que o progresso técnico teria uma capacidade revolucionária no sentido de democratizar a cultura. Um acidente de percurso na marcha insana do capitalismo, que facilitaria o acesse a discos, filmes e impressos. Walter Benjamin confiava que isso acabaria por gerar um processo de conscientização, decorrente da vontade da massa, que controlaria o mercado de bens culturais.

As questões observadas por Walter Benjamim estavam latentes desde que Richard Hamilton criou em 1922 a colagem O que Exatamente Torna os Lares de Hoje Tão Diferentes, Tão Atraentes? concebido como uma ilustração para o catálogo da exposição “This Is Tomorrow” do Independent Group de Londres. Em 1956 o crítico britânico Lawrence Alloway passou a denominar de Pop Art um tipo de produção que aproximava arte e design comercial, rompendo a fronteira que separava a arte mais elevada e a cultura de massa.

A obra de Richard Hamilton traz, sobrepostas, imagens retiradas de anúncios de revistas e que estão relacionadas à vida moderna: aspirador de pó, enlatados, televisão e outros objetos são exibidos por um casal que tem no próprio corpo a inscrição do simulacro consumista . Esses objetos, recontextualizados na obra, guardam a memória do seu locus original. Daí porque, entre outras questões, o conceito de figurativismo na obra de arte, como conhecíamos até então, começa a passar por uma transformação.

Essa arte que começa a surgir, e que é direcionada ao consumo popular, é transitória e supõe preços mais acessíveis – para que sua reposição se dê constantemente – e se traduz num excelente negócio. Para vender mais, ela é escandalosa e tem glamour, o que, em certa medida, justifica sua inclinação à temática jovem e sensual. Para isso, os artistas vão usar da tecnologia e do espaço público para alcançar visibilidade, tirando dos museus e galerias a exclusividade de abrigar as obras de arte. O que Exatamente Torna os Lares de Hoje Tão Diferentes, Tão Atraentes?, de Richard Hamilton, embora considerada por muitos a obra fundadora da Arte Pop, ela só viria a se estabelecer a partir da década de 60, quando os artistas passaram a defender uma arte popular (pop) que se comunicasse diretamente com o público através de signos e símbolos proveninetes da cultura de massa e da vida cotidiana, o que iria de encontro ao careater hermético da arte moderna. Assim, ela incorpora entre os seus temas as histórias em quadrinhos, a publicidade, as imagens televisivas e o cinema.

Nos Estados Unidos duas exposições em 1963, uma na Filadélfia e outra em Nova York, reunem obras de artistas como Andy Warhol e Roy Lichtenstein. Embora aquele grupo não apresente manifesto ou propósitos artísticos muito claros, os trabalhos individuais tinham traços comuns: valorização de objetos do cotidiano, referência à tradicão figurativa, colagens e sobreposições, desenhos simplificados e cores saturadas.

POP ART: em Andy Warhol, sua personificação

Entre todos os artistas que surgiram no período, Andy Warhol (1928-1987) se tornou a principal referência da Arte Pop. A criança pobre, que almoçava latas de sopa Campbell’s, soube como se reinventar e transformar em arte a reprodução em silkscreen daquelas latas (32 Latas de Sopas Campbell, 1961/1962). O exagero do efeito da simultaneidade estão nas latas mas também nos lábios de Marilyn Monroe (1962), a partir da foto de divulgação do filme Niagara. São imagens que se multiplicam, trazendo em si a ideia do anonimato e cuja reprodução mecânica afasta qualquer vestígio do gesto do artista. O recurso da serigrafia, considerado um recurso utilizado apenas em camisetas e embalagens comerciais, ganha dimensão artística quando reproduz a face da estrela de cinema no ano do seu suicídio. A fixação dos traços do rosto se dá no contraste com as cores berrantes e chapadas e que não ocupam exatamente o espaço o qual deveriam preencher, resultando numa composição visual impactante da estrela morta, que ganha ares fantasmagóricos.

O fascínio pelo mundo do Jet-set e sua celebração a fama, a opulência e o glamour seria um tema recorrente desde 1963 mas é em 1969, quando Warhol adquire uma máquina polaróide que ele passa a registrar o mundo das celebridades do qual passou a fazer parte. Com os instantâneos produzidos pela máquina fotográfica, ele cria uma espécie de caderno de rascunho imagético. Entre os anos de 1975 e 1980, Warhol recolhe na sua The Factory e em outros ambientes 77 fotografias de celebridades. Apenas os contornos básicos dos rostos eram enfatizados nestas fotografias em close e uma maquiagem branca aplicada sobre o rosto dos modelos ampliavam ainda mais o “estouro” da imagem causado pelo flash. Desta forma, ele levou para as páginas das revistas e para as galerias de arte a emergente cultura underground norte americana, até então restrita ao Estern Side nova iorquino, e o star-system, reunindo figuras como as de Jean-Michel Basquiat, Robert Mappelthorpe, Debbie Harry, Madonna, Liza Minelli, Tina Turner e até Pelé, entre outros. Esse material fotográfico serviu-lhe tanto na série Prints como base para a criação de outras serigrafias multicoloridas. O material criado por Warhol a partir dessa técnica foi reutilizado ainda em cartazes e capas de discos, como o Stick Fingers (1971), dos Rolling Stones.

Se a partir das Vanguardas o processo de criação da obra passou a ser referencial na Arte, aquelas fotografias trabalhadas por Andy Warhol adquiriram com o tempo considerável valor artístico e histórico, pois o artista conseguiu capturar um período significativo do estilo e da estética Pop, do culto às celebridades, do uso artístico da tecnologia, da cultura da superficialidade e da prática do consumismo ou seja: cada um daqueles instatâneos revela consistente valor simbólico. No entanto, a percepção de algumas de suas obras, com temas considerados mais explosivos, quando atrelados as operações de repetição e vivacidade das cores atraentes, acabam por gerar uma espécie de anestesia no público, o que aumenta a crueldade com que imagens de acidentes de automóveis, cadeira eletétrica, o luto de Jackie Kennedy e o cinismo de alguns políticos são tratados.

Andy Warhol, a exemplo de Marcel Duchamp, subverteu o conceito de Arte, que passou a dispensar a presença, a mão do artista na obra, enfatizando a relação intrínseca da arte com o capitalismo e criando uma tensão no tocante a autoria, a autenticidade, a originalidade e a técnica. Com Warhol, arte passou a ser principalmente mercado.

Oriundo da publicidade, Warhol começou sua carreira por volta de 1950. Naquela década, ele produziu ilustrações delicadas como o desenho A Flauta Mágica, para a capa da revista Ópera News e o desenho de uma maça vermelha trespassada por uma seta para uma gravação de um concerto de Toscanini. Neste meio tempo, fez ilustrações para vender sapatos e em 1960 já recorria às figuras do Super-Homem, Batman e Dick Tracy para criar seus acrílicos. A intimidade com o mundo dos meios de comunicação, aliado a um aguçado instinto de sobrevivência numa sociedade competitiva, fez com que ele logo percebesse que a melhor maneira de se destacar dentro do mercado seria criando uma marca, uma paródia para si mesmo, espetacularizando a vida privada (dele e das celebridades), promovendo bandas e artistas do glam-rock, como o The Velvet Underground e David Bowie, e editando a revista Interview. Aliás, interagir com outras mídias era uma das suas tendências: além de produzir filmes “de arte”, nos quais estrelavam ele mesmo, seus amantes ou amigos, ele criou o poster para o filme Querelle (1982), obra do diretor alemão Reiner Werner Fassbinder baseado no texto de Jean Genet. O cartaz retrata o ator Brad Davis com língua vermelha estendida para alcançar a orelha de um outro homem.

Ao ao colocar na sua prática artística imagens de Marylin e Elvis, ele pautou uma discussão acerca do sonho americano e suas contradições. Se ele fazia questão de declarar que o seu trabalho era fácil e sem nenhuma reflexão, sua vida, que correu em paralelo com a sua arte, demonstraram autocrítica e ironia extremas. Sua persona artística foi fabricada, assim como sua “auto-biografia”: escrita por encomenda, em 1975, por Bob Colacello e Pat Hackett. Pode-se dizer o mesmo de algumas de suas obras, visto que ele muitas vezes apenas assinava parte das serigrafias produzidas pela equipe da “Fábrica”.

Suas frases polêmicas e cínicas ajudaram-no a se lançar num mercado cada vez mais ávido por celebridades: “pinto isso porque eu queria ser uma máquina”, “acho que seria sensacional se todo mundo fosse idêntico” ou ainda: “Quero que todo mundo pense da mesma maneira. Acho que todo mundo devia ser máquina” forçaram o público a olhar para si mesmo e para o mundo em que estava inserido. Quando a critica e mídia passaram a reconhecer o seu trabalho, ele rabateu com sua definição mais famosa: “Se querem conhecer Andy Warhol, olhem para a superfície dos meus quadros, dos meus filmes, para mim. Isso sou eu. Não há nada por trás disso”. Decifrar aquele homem de peruca platinada, de óculos escuros e maquiagem pálida que mandava um imitador para fazer palestras no seu lugar passou a ser uma tarefa cada vez mais difícil. Viciado em auto-promoção, quando escapou do atentado que deixou-o entre a vida e a morte, suas primeiras palavras sobre o incidente foram para saber da cobertura dada pela mídia. “Fama é como amedoim. Quando você começa, é difícil parar”, disse.

Andy Warhol morreu em 1987 em decorrência de uma cirurgia na vesícula biliar, com uma carreira consagrada que durou 35 anos. Costumava dizer que, no futuro, “todo mundo seria famoso por quinze minutos”, mas sua fama perdura até os dias de hoje.

Os debates sobre a Indústria Cultural também ainda geram polêmica e pesquisas posteriores sobre consumismo, manipulação do imaginário e valor cultural. Na obra “Apocalípticos e Integrados”, Umberto Eco tenta um caminho de conciliação entre os pensadores mais fatalistas e aqueles que não encontram outra alternativa exceto o caminho da aderência aos media – embora com uma postura critica em relação a essa Indústria.

O pensamento de Umberto Eco considera a relevância de objetos (produtos) culturais que acabam sendo (re)utilizados pela Arte Pop, como a linguagem dos quadrinhos, e sua adequação ao mundo dos meios de comunicação de massa. Assim, ele demonstra a atualização do mito do Superman, as questões relacionadas ao consumo em massa e aos meios áudio-visuais como fato estético. Integrado, inteligentemente com essa Indústria Cultural, Andy Warhol deu a sua contribuição para Arte servindo-se dela e se deixando ser vorazmente devorado pela mídia.




Referências Bibliográficas:

ARGAN, G. Carlo Arte Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
ECO, Umberto. Apocalípticos e integrados. 1 a edição. São Paulo: Perspectiva, 1979.
GOFFMAN, Ken e JOY, Dan. Contracultura através dos tempos. Do mito de Prometeu à cultura digital. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007.
HOHLFELDI, A., MARTINO, Luiz C.,FRANÇA, Vera. Teorias da Comunicação: conceitos, escolas e tendências. 2 a edição. Rio de Janeiro: Vozes, 2002.
STRINCKLAND, Carol. Arte Contemporânea. Da Pré-História ao Pós-Moderno. 3a. edição. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999.
WARHOL, Andy. A filosofia de Andy Warhol. 1 a edição. Rio de Janeiro: Cobogó, 2008.

Documentos eletrônicos:
SANTOS, Alexandre. 35 celebridades eternizadas pelas fotos Polaroid de Andy Warhol in: FreakhowBusiness. Disponível em: http://freakshowbusiness.com/2010/03/20/35-celebridades-eternizadas-pelas-fotos-polaroid-de-andy-warhol/

 

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