Opinião

As três dimensões do absurdo. Economista diz que projeto da Arena do Sport é irregular

As três dimensões do absurdo. Economista diz que projeto da Arena do Sport é irregular

08/04/2012 14:05

Por Alfredo Bertini*

Ações de modernização são bem-vindas, mas existem limites por considerar.  O moderno de forma deletéria, que agride os valores da identidade cultural, ou mesmo, quando se sobrepõe aos fundamentos econômicos e ao senso de cidadania, merece questionamentos.

O assunto dessa “isca” de “pseudo modernidade” chamada de Arena Sport se enquadra nesse diagnóstico. Apenas reflete e ratifica como a vontade de grupos de interesses na especulação imobiliária se sobrepõe aos valores da cidadania. No Recife, fomos acostumados a isso, pois a confusão entre o entendimento do futuro e a modernidade especulativa tem sido uma práxis. Afinal, fomos capazes de calar diante daquele absurdo dos anos 70, quando a história do bairro de São José foi maculada, com a demolição de casas antigas e a secular Igreja dos Martírios. Uma ação em nome da modernidade, ditada pelo traçado de uma avenida que hoje liga o nada a coisa alguma. Nos dias de hoje, ainda vivemos sob os efeitos desse “fantasma destruidor”, pois basta olhar a cruel verticalização da cidade, sem o menor critério urbanístico e sem o devido respeito à mobilidade.

Com esse e outros exemplos espalhados pelo Recife, os espíritos preservacionistas são raros e são pouco ouvidos pelas autoridades competentes. É lógico que a modernidade é fundamental e tem todos seus méritos. Mas, precisa ser comedida quando o assunto é respeitar a História, a preservação de patrimônios construídos com arte e esmero. Quem assim agiu pelo mundo, soube como acomodar o moderno, pois na essência, encontrou como preservar o antigo. Sem esse controle, viveremos um futuro sem referências, esmagado pela avalanche dos problemas urbanos. Assim, de imediato, numa análise técnica rigorosa, esse  projeto que chamam de Arena para iludir os que agem com emoção, possui três dimensões problemáticas: a cultural, a socioeconômica e a urbana.

No aspecto cultural o projeto poderá significar mais um exemplo de perda de “identidade”. A Ilha do Retiro e seu complexo de área urbana grandiosa têm uma referência histórica na cidade. A sede social, num traçado arquitetônico arrojado para a sua época, exprime uma beleza associada a essa história. Um patrimônio que foi resultado do esforço de inúmeros rubro-negros. O valor simbólico disso é incalculável e não pode ser apagado pelo desejo insano de construtores acostumados às bananas de dinamites. Será que não é um orgulho ouvir muita gente definir nossa cancha como “La Bombonera” brasileira? Esse conceito e outros tantos implícitos são simbolismos culturais que clamam pela preservação patrimonial. Isso – é claro – sem que percamos de vista uma necessária modernização do estádio, que já carece dessa decisão há muitos anos.

O aspecto socioeconômico salta aos olhos por duas vias. Na primeira, pelo questionamento que hoje se faz a essa “política de construção de arenas”, que tem contaminado o futebol. Contra esse modismo sugiro a leitura do livro “Soccernomics”, escrito na Inglaterra por um economista e um jornalista, pois assim se poderá ter noção do que está por trás dessa “indústria de interesses”, abertamente alimentada por consultores de plantão e construtoras acostumadas à especulação. Numa segunda via, lembrem-se da outra arena já iniciada na região metropolitana, concebida pelo modelo de PPP, com vistas à Copa. Assim, será que há retorno econômico para dois investimentos semelhantes numa mesma zona urbana?

Por último, na condição de cidadão, questiono sobre o projeto urbano dessa nova arena. Não há quem duvide que a região da Ilha não seja um bom exemplo de caos urbano. Um simples exercício: façam apenas as contas dos números de veículos que poderão estar associados a cada unidade do lado imobiliário do projeto. Apesar de discurso de classe média, como fica então essa acessibilidade? Ou teremos mesmo aí mais um exemplo cruel do construir por construir? Verdadeiras arenas, mesmo que às vezes questionáveis pelo seu investimento, são construídas em áreas fora da aglomeração urbana, tudo dentro de um planejamento que envolva vias de acesso, transporte coletivo de massa e outros valores de infraestrutura. Juntar um complexo esportivo desse nível com “chapadões” de torres empresariais ou coisas que o valham, numa área já problematizada pelo caos urbano, é simplesmente um crime de cidadania consciente.

Se o objeto do desejo é mesmo a modernidade, o Sport já deveria estar sintonizado com esforços de recuperação física de todo seu patrimônio, assim como, com os modelos de profissionalização coerentes, que façam a sua inserção no mercado, através de ações competentes de marketing e outros instrumentos de parceria. Mas, enquanto não fazem o dever de casa da verdadeira modernidade, o assunto Arena serve apenas para iludir, de maneira perigosa, o ego apaixonado dos nossos torcedores e simpatizantes. Só que não sabe, parte dessa massa, o risco que está embutido numa operação que pode comprometer a história centenária de glórias do clube.

Humildade para discutir de forma transparente e democrática é o mínimo que poderia ter essa Diretoria Executiva. Mas, ao fugir do debate e garantir até cláusula de confidencialidade em seu acordo comercial destinado ao projeto, não há como se deixar de reconhecer sua atitude discricionária e arrogante. Uma simples observada no que faz um co-irmão como o Grêmio de Porto Alegre, seria o suficiente para que qualquer cidadão, com o mínimo de racionalidade, perceba o quanto esse projeto de Arena é falacioso. Uma pena!

 

*Alfredo Bertini é economista, professor e produtor cultural.

Comentários

Canjos - 8 de abril de 2012

Só deveria ser permitido 10 andares para predios residenciais em todo Recife para ver se atrasa um pouco o caos na mobilidade. O resto é paliativo.

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