Opinião

Lixo e sustentabilidade

Lixo e sustentabilidade

03/04/2012 09:40

Por Bertrand Sampaio*

Ao final do século 20, uma das grandes questões colocadas à sociedade nas principais conferências de abrangência mundial teve como foco a relação entre o crescimento econômico e o meio ambiente. A temática que continua dominando as preocupações da sociedade nesta segunda década deste século está direcionada aos resultados catastróficos e em alguns casos irreversíveis deste modelo de desenvolvimento insustentável, sobretudo com relação aos impactos nas mudanças climáticas.

A produção de bens de consumo intensificada pelo processo de industrialização gerou uma quantidade e diversidade imensa de lixo, considerado aqui como todo e qualquer resíduo sólido proveniente das atividades humanas ou gerado pela natureza em aglomerações urbanas, como folhas, galhos de árvores, terra e areia espalhados pelo vento. Esta questão tem sido uma das expressões mais visíveis desta insustentabilidade nas cidades.

A disposição desses resíduos constitui a etapa final de um grande ciclo, quando os produtos mobilizados pelo ser humano para satisfação de suas necessidades vitais são devolvidos e reintegrados ao meio ambiente de que provieram. Valorizar ou eliminar, rejeitar ou preservar são dilemas do comportamento social que permitem ao ser humano colocar em ação sua instigante capacidade de criação ou revelar, apenas, a sua perversa atitude predatória. Pensar os restos que a sociedade ainda despreza – o lixo – no momento atual é buscar a recomposição da relação natureza e ser humano, avaliando o alcance de suas próprias ações e decisões. Trata-se, não apenas de discutir políticas públicas ou novas tecnologias de limpeza urbana, mas, sobretudo, de discutir um novo modelo de sociedade, sustentável.

De acordo com o quarto relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), os resíduos provenientes do pós-consumo contribuem com uma parcela de aproximadamente 3% das emissões globais de gases de efeito estufa. Considerando que iniciativas de gestão de resíduos acontecem no âmbito local, sem a respectiva quantificação da mitigação dos gases de efeito estufa, o valor relativo desses gases deve estar subestimado.

Dentre as propostas que aparecem como mitigadoras dos impactos da gestão inadequada dos resíduos sólidos, a adoção do princípio dos 3Rs – reduzir, reutilizar e reciclar, sempre nesta ordem de prioridade, é o que de melhor se apresenta para a sociedade enquanto proposta prática na maioria dos países centrais e em desenvolvimento.

O lixo é um problema ambiental, mas também social, cultural, sanitário e econômico. O seu inadequado manejo e disposição polui a água, o solo e o ar. Os milhares de catadores de materiais recicláveis que sobrevivem nas ruas e nos lixões configuram seu principal problema social. É também um transmissor de diversas doenças e as soluções convencionais adotadas para os serviços de limpeza pública são dispendiosas.

Mesmo consolidado como grave problema urbano, o serviço de limpeza pública continua sendo tratado pelos dirigentes municipais de forma superficial, com raras exceções. O principal enfoque para a sua solução ainda está direcionado ao plano operacional, cujas maiores preocupações são remover, coletar e transportar, na forma possível, os resíduos sólidos produzidos nas cidades e destiná-los para sítios afastados dos centros urbanos, sem grandes preocupações com os impactos, sobretudo sociais, sanitários e ambientais, decorrentes desse procedimento. A histórica omissão governamental, nos três níveis, contribuiu bastante para agravar esta situação.

A coleta seletiva do lixo ainda não é uma realidade, apesar de ser atualmente obrigatória por lei federal. Precisamos estar atentos para identificar se as soluções adotadas nos municípios brasileiros atendem aos princípios da redução, reutilização e reciclagem, incluindo a compostagem da matéria orgânica, sobretudo neste ano eleitoral. Prefeito que não tem compromisso com a gestão adequada do lixo e por consequência, com a sustentabilidade das cidades, não merece nosso voto.

 

*Conheça Bertrand Sampaio, clique aqui.

Comentários

Rubens A Costa - 29 de maio de 2012

Estamos vivenciando o que aconteceu por décadas com saneamento urbano, onde os gestores municipais não valorizavam devido sua falta de visibilidade de sua obra.
Estamos em pleno século XXI, e nossos dirigentes ainda não acordaram, para os perigos, riscos, custos econômicos e sociais decorrentes da degradação ambiental causada pelo lixo.
Artigos como estes, mostram de forma abrangente, as consequências desastrosas do consumismo e má utilização dos resíduos sólidos.
Brilhante e esclarecedor artigo do professor Bertrand.

[Reply]

PEDRO PAULO SPENCER SOARES - 29 de maio de 2012

Comungo da mesma ideia do Camarada Bertrand… Acho, inclusive, que os maiores responsáveis por tal situação são aqueles que produzem o lixo, posto que, a despeito de a dignidade humana não ser uma realidade, senão em sede de previsão constitucional (art, 1º, III, de nossa CFBR/1988), nós e, aí me incluo, podemos mudar esse cenário: sujar menos, focar mais os objetivos de nossa coletividade, escolher melhor os nossos representantes. Que tal? Será minha esta utopia ou de todos?

[Reply]

Marcelo S. Alencar - 15 de agosto de 2012

É preciso voltar no tempo, para a época em que era usual reciclar no Brasil. Na década de 1960, as donas de casa costumavam juntar as garrafas, ferro-velho, jornais, revistas usadas, para vender aos recicladores de então. A sociedade ficou mais afluente e optou pelo descarte, pelo desperdício e pela poluição.

[Reply]

Opine e entre na discussão