Opinião

O inverno do fariseu e a primavera do pessedismo

O inverno do fariseu e a primavera do pessedismo

30/03/2012 17:33

Por Luís Costa Pinto*

A semana que passou foi pródiga em lições de política, de real politik. Como saldo positivo ela reafirma mais profundamente a convicção dos que acreditam que atos políticos não podem ser regidos pelo fígado, e sim pelo cérebro.Que o curto prazo é o caminho mais rápido para o abismo. E que a verdade está em algum lugar no meio do caminho entre o que se fala e o que se faz.

O declínio da imagem pública do senador Demóstenes Torres (DEM), que se não conhecer o epílogo de sua carreira pública com a renúncia ao mandato de senador por Goiás conhecê-lo-á pelo expurgo que lhe será imposto pelos pares, prova mais uma vez a inaptidão para a disputa democrática daqueles que incorporam o espírito udenista.

A UDN e o PSD foram os mais vigorosos partidos políticos que existiram no nosso período entreditaduras – o espaço de tempo democrático compreendido entre a ditadura de Getúlio Vargas (1930-45) e a ditadura militar (1964-85).

Os udenistas jamais chegaram ao poder pelo voto. Demoliam governos e biografias praticando o mais aberto denuncismo e os mais descarados assassinatos de reputações. Para isso encontravam na imprensa e em setores da sociedade civil verdadeiras caixas de ressonância. A UDN não sobreviveu ao militarismo que cevou, mas o udenismo segue vivo entre políticos e em parte da sociedade. Exemplos prontos e acabados de udenistas: Fernando Collor de Mello na encarnação de presidente da República (hoje, não mais), os próceres da oposição ao ex-presidente Lula no Senado, como os senadores Arthur Virgílio e Tasso Jereissati (que não se reelegeram) e o ex-catão da República Demóstenes Torres, que conhece agora o ocaso de uma carreira política erguida sobre frases de efeito que escondiam uma personalidade nefasta.

Os pessedistas, por sua vez, reuniam um verdadeiro mestrado ad hoc de política. Se atingiram o ápice da cultura tendo por líder o ex-presidente Juscelino Kubitschek, formaram gerações de políticos que vicejaram mesmo em outras legendas, porém conservando a astúcia, a perspicácia e a ação gregária. São muitos os exemplos: Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, Mário Covas, Miguel Arraes, Fernando Henrique Cardoso, Luís Eduardo Magalhães (nascido em berço adornado e dourado da UDN, tinha alma e espírito do PSD), Lula e dois dos protagonistas de maior futuro nos anos que estão por vir – Aécio Neves e Eduardo Campos.

O farisaísmo com que os udenistas como Demóstenes exercem seus mandatos ou atuam nas vésperas de chegar ao poder termina por incinerar suas biografias num processo de autocombustão. Eles esquecem que o exercício da política é necessariamente a projeção de um futuro melhor para o todo, e não a disputa pela denúncia que mais enrubescerá a face da classe média emergente do Brasil e concederá a ela argumentos frágeis destinados a fazê-la exercer suas curtas e breves indignações de mesa de bar. Demóstenes já é passado em Brasília antes mesmo de seu inverno ter chegado ao fim, mas não é o último fariseu a ter trilhado esse caminho. É só mais um.

Recluso e tentando expiar seus demônios o senador do DEM assistiu de casa ao regresso do ex-presidente Lula ao centro do palco político. Foi um espetáculo em três atos encenado por um grande ator capaz de farejar por instinto os anseios da plateia. No primeiro ato Lula chamou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, rival político, mas amigo de lutas gloriosas do passado, para que lhe visitasse no hospital em que fazia os derradeiros exames. A foto dos dois, abraçados, é uma imagem icônica que traduz o que há de melhor no jogo em que são mestres. No dia seguinte, por meio de um vídeo que encerra um discurso vigoroso e de fazer tremer os adversários, Lula anuncia que está de volta aos palanques e endossa atos e gestos da presidente Dilma Rousseff. Um dia depois, Lula avisa que não se sente divino e concede uma entrevista à Folha de S. Paulo em que faz emergir sem contornos seu lado humano e suas fragilidades de homem que teme a Deus e a morte.

Numa escala regional, mas num gesto com potencial de mexer futuramente no quadro da política nacional, o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB) aproveitou uma entrevista ao portal UOL para dirigir a seu adversário regional, o governador de Pernambuco Eduardo Campos (PSB), rasgados elogios políticos e administrativos. Em resumo, reconheceu que a administração de Campos, que o sucedeu em 2006 e o derrotou em 2010, é positiva para o estado e que a personalidade do governador pernambucano já ultrapassa as fronteiras e se firma como um nome posto no cenário nacional. No dia seguinte Campos visitou Vasconcellos em seu gabinete no Senado, quebrando um tenso gelo que durava desde os tempos em que o avô do governador, Miguel Arraes, era vivo.

Nem Lula, nem Fernando Henrique; nem Jarbas, nem Eduardo Campos, nenhum deles jamais fez política com o fígado ou desmontando a reputação dos antagonistas. Podem colher, hoje e daqui para a frente, os louros e as virtudes de biografias que se encontram pelo meio do caminho. Divergem, debatem, mas encontram soluções públicas apesar das diferenças. Assim é sempre melhor. Assim sempre se avança. Apesar da larga diferença de idade entre esses quatro personagens a coleção de gestos largos reunidos ao cabo dessa última semana prova que ainda viverão primaveras políticas para ver florescer o entendimento que plantam.

 

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