Política

A cachoeira de Demóstenes Torres

A cachoeira de Demóstenes Torres

30/03/2012 06:46

Por Elio Gaspari

Demóstenes Torres, ex-líder do DEM no Senado, foi delegado de polícia, promotor e secretário de Segurança de Goiás. Fosse um frade, seria possível dizer que se aproximou do contraventor Carlinhos Cachoeira por amor ao próximo.

No ano passado, aceitou um fogão e uma geladeira (importados) de presente de casamento. Vá lá que, pela sua etiqueta, “a boa educação recomenda não perguntar o preço nem recusá-los”.

Em 2009, Demóstenes recebeu de Cachoeira um aparelho Nextel, habilitado nos Estados Unidos, e utilizava-o para conversar com o amigo, sem medo de grampos. Segundo um relatório da Polícia Federal, as chamadas contam-se às centenas. Isso e mais um pedido de R$ 3 mil para quitar uma conta de táxi aéreo.

Geladeira e fogão são utensílios domésticos. Rádios com misturador de voz para preservar conversas com um contraventor, cujas traficâncias haviam derrubado, em 2004, o subchefe da assessoria parlamentar da Casa Civil da Presidência da República, são outra coisa.

Em 2008 (e não em 2009, como o signatário informou no domingo), o senador foi personagem da denúncia de um grampo onde teriam capturado uma conversa sua com o então presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes. A acusação custou o cargo ao diretor da Agência Brasileira de Informações, delegado Paulo Lacerda.

Mendes, cuja enteada é hoje funcionária do gabinete do senador, disse na ocasião que o país vivia “um quadro preocupante de crise institucional”.

As investigações da Polícia Federal em torno das atividades de Carlinhos Cachoeira haviam começado em 2006. Uma sindicância da Abin e outra da PF não conseguiram chegar à origem do grampo, cujo áudio jamais apareceu.
Gilmar Mendes disse, posteriormente, que “se a história não era verdadeira, era extremamente verossímil”.

O futuro do senador Demóstenes está pendurado na distância que separa o verdadeiro do verossímil. O verdadeiro só aparecerá quando ele e a patuleia tiverem acesso a toda a documentação reunida pela Polícia Federal.

Nesse sentido, não é saudável que seja submetido à tortura dos vazamentos administrados. (Paulo Lacerda foi detonado por um deles e não se descobriu quem o administrou). Se o negócio é verossimilhança, o senador está frito.

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